1) A busca humana da verdade absoluta
Por volta de 10.000 a.C., a humanidade começou a abandonar o modo de vida dos caçadores-coletores e a levar uma vida social sedentária e coletiva, baseada na agricultura e na pecuária. Foi o primeiro passo verdadeiro da civilização. Com o êxito da agricultura e da pecuária, os assentamentos sedentários cresceram e se organizaram pouco a pouco, e surgiram tribos e Estados. Nessa época, o pensamento coletivo humano atingiu um ponto crítico na história da humanidade. Tomou-se consciência dos problemas políticos, econômicos e éticos que a formação das tribos e dos Estados trazia, e tentativas de resolvê-los surgiram em vários lugares ao mesmo tempo. Em diversas esferas de civilização do globo, essas tentativas deram frutos.
O mais importante nessas tentativas era descobrir qual verdade absoluta (Absolute Truth) o ser humano poderia crer e seguir. Pois só depois de estabelecida essa verdade o ser humano pode, apoiando-se nela, desenvolver o curso de seu pensamento e seus sistemas filosóficos em todos os outros campos. Chegar ao conceito de verdade absoluta exigiu muitos séculos, passando pelo debate, pela meditação, pela profecia, pela convicção e, quando necessário, pela luta. Foi ao fim desse processo que o Dao, no Oriente, e Deus, no Ocidente, se estabeleceram cada um como verdade absoluta.
Na China, no Oriente Próximo, na Grécia e na Pérsia, esse movimento atingiu seu ápice nos poucos séculos em torno do século VI a.C. Karl Jaspers chamou o período do século VIII ao III a.C. de “era axial” (Axial Age ou Axis Age) da história do pensamento humano. Nesse tempo, em diversas partes do mundo, formaram-se quadros religiosos e filosóficos em torno da verdade absoluta. As religiões do sobrenatural e os sistemas de filosofia natural assim formados desempenham desde então o papel de “eixo central” do pensamento humano.
Em apenas alguns séculos, durante a era axial, surgiram os grandes mestres da humanidade. Laozi, Confúcio, o Buda e Sócrates nasceram um após o outro. Na mesma época, o judaísmo de Moisés se consolidou, o zoroastrismo foi fundado e profetas como Isaías surgiram no judaísmo. Algum tempo depois da era axial nasceu Jesus, e algum tempo depois ainda Maomé, profeta do islã, que partilha uma parte do Antigo Testamento com o judaísmo e o cristianismo. Assim se estabeleceram todas as grandes religiões e correntes de pensamento que se tornaram os pilares da civilização mundial. Ainda hoje seguimos os sistemas de pensamento estabelecidos na era axial.
Para comparar o Oriente e o Ocidente, este livro recorre com frequência a passagens da Bíblia e do Daodejing. O Daodejing começou a ser traduzido no Ocidente no fim do século XIX, para o inglês, o alemão, o francês, e desde então foi traduzido mais de 250 vezes para línguas ocidentais. No entanto, essas traduções diferem a ponto de ser difícil acreditar que traduzem o mesmo livro. Ao contrário, a expressão ocidental de Deus, ao fim de um processo em que várias versões foram depuradas, existe num único texto: há apenas a Bíblia. Mesmo assim, o conceito ocidental de Deus não é fácil de transmitir à civilização oriental, pois esta não admite que o ser humano possa exprimir a verdade absoluta. Isso significa que o pensamento filosófico fundamental do Oriente e do Ocidente é diferente.
Quando o conceito ocidental de Deus foi introduzido no Oriente, deveria ter-se seguido uma comparação entre o Deus do Ocidente e o Dao do Oriente. Mas esse movimento, que só poderia nascer de um olhar que abarcasse as duas civilizações em seu conjunto, não ocorreu. Na prática, limitou-se a comparar, e a opor, o culto aos ancestrais defendido pelo confucionismo e a adoração de Deus defendida pelo cristianismo. Ora, uma comparação filosoficamente significativa entre as duas civilizações deveria ter partido não do culto confuciano aos ancestrais, mas da comparação entre o Dao do Oriente e o Deus do Ocidente.7 Este livro compara o Dao e Deus: isto é, a filosofia natural do Oriente, representada pelo Dao, e a religião revelada do Ocidente, representada por Deus.
2) Os conceitos do Dao e de Deus consolidados por volta do século VI a.C.
O Dao é uma verdade absoluta que trata da natureza. 8 Deus é uma verdade absoluta que trata de um ser sobrenatural. O conceito do Dao é exposto em detalhe no Daodejing e expresso esporadicamente no pensamento confuciano. O conceito do Deus do monoteísmo é explicado em detalhe na Torá do judaísmo, isto é, no Pentateuco. A consolidação de ambos os conceitos ocorreu por volta do século VI a.C.
A formação do conceito de Deus passa por um desenvolvimento complexo. Há, em primeiro lugar, o politeísmo (polytheism) e o monoteísmo (monotheism). O politeísmo greco-romano e o monoteísmo egípcio-judaico nasceram ambos em torno do Mediterrâneo. Deus responde às preces dos homens, faz julgamentos morais e opera milagres. O politeísmo greco-romano é registrado em detalhe por Homero, no século VIII a.C., na Ilíada e na Odisseia. Depois, no século IV d.C., o cristianismo se tornou no Ocidente a religião oficial do Império Romano. Os templos e os cultos do politeísmo foram então amplamente destruídos no Ocidente.9 Assim o cristianismo se ergueu sozinho, sobre as ruínas do politeísmo.
O cristianismo e o judaísmo, religiões reveladas, partilham o Antigo Testamento. Seus cinco primeiros livros, do Gênesis, o primeiro, ao Deuteronômio, o quinto, são chamados de Pentateuco, os cinco livros de Moisés. É a Torá, palavra que significa a Lei. O monoteísmo de que provém o Pentateuco começou no Egito. No século XIV a.C., o faraó Akhenaton aboliu a religião politeísta do Egito e fundou um monoteísmo que adorava o deus sol como deus único. No Egito, esse culto ao deus sol foi chamado de atonismo (Atenism), e esse deus, de Aton (Aten).
Fora do Egito, um movimento monoteísta nasceu no século VI a.C. no então emergente Império Persa. O zoroastrismo foi ali reconhecido como religião oficial do Estado. Fora sistematizado como religião por um profeta, Zoroastro. O zoroastrismo crê em Ahura Mazda como Deus: um ser universal e transcendente, símbolo da luz e do bem, e criador do universo.10 Ahura Mazda representa a verdade e a ordem; supõe no universo um confronto entre o bem e o mal e luta contra as forças da mentira e da desordem. Nesse combate, Ahura Mazda sai finalmente vitorioso. Ao longo do processo aparecem noções como a demonologia, a escatologia e a ressurreição.
O surgimento do monoteísmo egípcio e do monoteísmo persa teve um papel muito importante na formação do conceito monoteísta judaico registrado no Pentateuco. O judaísmo sofreu a influência dos monoteísmos nascidos no Egito e na Pérsia: aprendeu com eles os mitos e as narrativas transmitidos, o significado filosófico que traziam e o modo de aplicá-los a uma doutrina nova. Tudo isso foi organizado no Pentateuco. O Pentateuco foi reunido em sua forma atual no século V a.C. por Esdras (Ezra), 800 anos depois do nascimento de Moisés.
É fácil supor que, ao longo desses 800 anos, o mito da criação, o dilúvio de Noé e as narrativas do Êxodo de Moisés se entrelaçaram com os mitos das tribos vizinhas e só se completaram sob forte influência deles. Grande parte da narrativa da criação, da narrativa do dilúvio e das histórias de Moisés e de Sansão foi provavelmente tomada da Babilônia. A narrativa do jardim do Éden é de origem babilônica, mas os judeus já a conheciam antes do cativeiro da Babilônia. Quando os judeus voltaram a Jerusalém, o Pentateuco já havia sido reunido num só livro, e o restante veio em seguida.11
Visto por esse ângulo, está mais próximo da verdade dizer que o Pentateuco não é, como relata o Antigo Testamento, o registro que só Moisés teria recebido diretamente de Deus, e sim um conjunto de sabedoria acumulado ao longo dos séculos: coletado, depurado, absorvendo durante um longo período muitos elementos importantes de seu entorno, ele chegou até nós em sua forma atual.
O Êxodo de Moisés e a fixação do texto do Antigo Testamento por Esdras e Neemias (Nehemiah) estão separados por cerca de 800 anos. Nesse tempo, grande parte da religião de Javé evoluiu, por assim dizer, às avessas, até se harmonizar, ou mesmo se confundir, com a religião primitiva de Moisés. Esse é um fato fundamental e importante, que constitui o núcleo da história da religião judaica. 12
Espinosa observa que alguns acontecimentos registrados no Pentateuco ocorreram depois da época de Moisés.13 Considera-se que o Deuteronômio foi escrito após a morte de Moisés. Freud supunha que Javé, o Deus do judaísmo, fosse originalmente um deus do vulcão, um dos deuses politeístas da região. O próprio Pentateuco contém elementos que apoiam essa ideia, como este versículo do Deuteronômio: “Porque o SENHOR, teu Deus, é um fogo consumidor, um Deus ciumento.” Como Espinosa e Freud eram judeus, temiam as consequências que tais afirmações poderiam ter e providenciaram para que seus livros fossem publicados depois de sua morte.14
E o Daodejing de Laozi, surgido mais ou menos na mesma época? Laozi é geralmente situado no século VI a.C., no fim do período das Primaveras e Outonos. Essa época coincide quase exatamente com aquela em que o Pentateuco apareceu em sua forma editada e acabada. Segundo a lenda, o Daodejing é o que Laozi deixou, a pedido de Yin Xi (尹喜), o guardião do passo de Hangu, quando o atravessou para se despedir da sociedade humana. Olhando de perto, porém, muitos pontos permanecem obscuros: era ele uma só pessoa ou representava várias, e em que época viveu? Além disso, foram descobertas várias versões do Daodejing atribuído a Laozi; a mais antiga que se conserva dataria de cerca do século IV a.C. Por isso está mais próximo da verdade ver também no Daodejing não a obra de Laozi sozinho, mas um sistema de pensamento constituído a partir de ideias de tipo taoísta partilhadas por muitos pensadores, do fim das Primaveras e Outonos ao início dos Reinos Combatentes. 15
O Daodejing de Laozi e o Pentateuco de Moisés não devem, portanto, ser vistos simplesmente como os pensamentos ou as obras de um único homem, Laozi ou Moisés, e sim como a condensação, no Oriente e no Ocidente, sob a forma do Daodejing e do Pentateuco, de ideias essenciais sobre a relação entre a natureza e o ser humano, já amplamente difundidas na aurora das duas civilizações. Ao longo de vários séculos, esses textos se misturaram às filosofias e às correntes de pensamento ao seu redor, influenciando-as e sendo influenciados por elas, e adquiriram assim, naturalmente, uma base ampla. Vê-los desse modo ajuda a compreender a importância do Daodejing no taoísmo e a do Pentateuco no judaísmo, assim como as diferenças fundamentais entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.
O Antigo Testamento do judaísmo, incluído o Pentateuco, tornou-se, junto com o Novo Testamento, que traz o registro de Jesus, a Bíblia do cristianismo. Depois do Gênesis, o Antigo Testamento é a crônica do povo de Israel entre 1500 e 400 a.C. Seu núcleo são o pecado (sin) e o arrependimento dos homens, o juízo e a salvação de Deus e a profecia do Messias. O Novo Testamento trata do ensinamento de Jesus no século I d.C., depois de seu nascimento, e da expansão do cristianismo. Ele enfatiza que Jesus, como Messias, redimiu os pecados de toda a humanidade, e a universalidade da graça e da salvação. O judaísmo difere fundamentalmente do cristianismo por não admitir o núcleo do Novo Testamento: que Jesus seja o Messias. Mas o judaísmo e o cristianismo não diferem em nada no fato de seguirem ambos a tese do manifesto, segundo a qual o ser humano pode exprimir a verdade absoluta.
O conceito do Dao também segue o curso da história. Mas seu curso apresenta um padrão diferente do ocidental: o judaísmo, o cristianismo e, dentro do cristianismo, a separação entre católicos e protestantes e o crescimento de ambos. O conceito do Dao seguiu o caminho não da divisão e da luta, mas do desenvolvimento e da difusão. Isso se deve ao pensamento do yin e do yang e à tendência sincrética do Oriente. Depois do Daodejing de Laozi, o pensamento e a filosofia mais importantes são os de Zhuangzi (369–286 a.C.). Por isso o taoísmo também é chamado de filosofia de Lao-Zhuang. Há diferenças entre o Daodejing e o Zhuangzi. O Daodejing de Laozi é um livro de extrema densidade, em que uma só palavra, uma só frase condensam muitos sentidos. O Zhuangzi, por outro lado, é um livro bem mais volumoso, escrito em forma de narrativas e agradável de ler, mas, na densidade de seu conteúdo, difere do pensamento condensado do Daodejing. É que o Daodejing reúne a sabedoria de muitas pessoas que partilharam o pensamento taoísta ao longo de vários séculos, ao passo que os livros do Zhuangzi foram escritos por Zhuangzi e seus discípulos em conjunto, e às vezes só por ele. 16
O taoísmo absorveu o pensamento do yin e do yang e a filosofia da mudança do Yijing, consolidou-os no conceito do Dao e o difundiu para outras filosofias: o confucionismo, o moísmo, a escola legista. A influência do confucionismo, do moísmo e dos legistas sobre o desenvolvimento da sociedade e da história orientais foi imensa. Mas eles não tratam da concepção do universo, nem da concepção da natureza, nem da visão de mundo, e nesses pontos dependem dos conceitos do taoísmo. Assim, é o Daodejing de Laozi que organiza e dá a ver o pensamento da civilização oriental sobre a relação entre a natureza e o ser humano e, por conseguinte, sobre a concepção do universo, a geração e o funcionamento da natureza.
3) Duas maneiras de exprimir a verdade absoluta: o não manifesto (不顯) vs. o manifesto (示顯)
A civilização ocidental crê que o ser humano pode exprimir a verdade absoluta. A filosofia segundo a qual “a verdade pode ser exprimida” se designa como o manifesto (shixian, 示顯). Seu contrário deveria se formular como o não manifesto (buxian, 不顯): “a verdade não pode ser exprimida”. Mas o pensamento filosófico que admite esse conceito desapareceu há muito tempo no Ocidente. Por isso, no Ocidente, os contrários do manifesto são palavras como “dissimulação”, “ocultação”, “encobrimento”: todas ideias más ou negativas. Essas palavras consideram o manifesto justo e normal e classificam como negativo tudo o que não se harmoniza com ele. É que se procura analisar tudo dentro do sistema de pensamento ocidental, em que o manifesto é o conceito correto. Elas revelam o “viés” da civilização ocidental.
Assim, o Ocidente não consegue compreender o conceito de não manifesto, que está no centro da civilização oriental. O Dao do Oriente pertence ao pensamento do não manifesto: o pensamento segundo o qual “o ser humano não pode exprimir a verdade absoluta”. Pois “nossa vida tem limite, mas o saber não tem” (Zhuangzi, “O princípio de nutrir a vida”). Ninguém pode dar com certeza uma resposta sobre o caminho da natureza, isto é, o Dao. Mas há aqui um ponto importante: o Dao, verdade absoluta, não pode ser definido, e no entanto “existe”. “A verdade existe, mas não pode ser exprimida.” Esse pensamento se designa como o não manifesto. A primeira frase do Daodejing, “dao ke dao fei chang dao” (道可道非常道, o Dao que se exprime não é o Dao eterno), significa precisamente o não manifesto.
O não manifesto é a filosofia do Dao da civilização oriental. Se o ser humano afirma ter descoberto a verdade e a exprime, ela já não é a verdade absoluta. Buscar o Dao é, portanto, tender para uma verdade absoluta que não se pode alcançar, e o método se torna indutivo. Assim, o ser humano se esforça por encontrar, no meio em que vive, uma verdade relativa adequada à situação, que não pode impor aos outros. E, como a verdade absoluta está fora de alcance, a humildade e a deferência se tornam a ética fundamental.
No Ocidente, como o ser humano foi criado por Deus, é em Deus que se buscam todas as respostas. As respostas encontradas em Deus são absolutas, e são os profetas que as transmitem. Por serem a verdade absoluta, podem ser impostas aos outros. Isso se apoia num pensamento dedutivo. Mas surgem questões fundamentais: de onde vem Deus, quem é profeta, e por que o mal existe? São questões insolúveis. Crer na existência de Deus pertence, portanto, ao domínio da fé (faith), fora de toda persuasão e de todo debate. Não tem relação com o juízo da mente. Crer na palavra de Deus que o profeta transmite é o manifesto. Se o não manifesto é o núcleo da filosofia natural, o manifesto é o núcleo da religião revelada.
O não manifesto significa “aquilo que não se revela” ou “a impossibilidade de ser exprimido”.17 O Dao, verdade absoluta, não se revela e não pode ser exprimido. A palavra inglesa unmanifest é a que traduz com mais fidelidade o sentido de buxian.18 O não manifesto reúne duas posições filosóficas: “a verdade existe” e, no entanto, “a verdade não pode ser exprimida”. Nisso, o não manifesto da civilização oriental se distingue do agnosticismo da civilização ocidental. O não manifesto reconhece a existência da verdade absoluta; o agnosticismo afirma que não se pode conhecer a própria existência da verdade absoluta. Uma vez compreendido o verdadeiro sentido do manifesto e do não manifesto, vê-se que a diferença entre o Dao e Deus não está na “existência” do absoluto, mas em sua “expressão”.
A verdade existe tanto no Dao quanto em Deus, mas, na civilização ocidental, o conceito central é que “a verdade pode ser exprimida”. O céu e a terra criados pela palavra de Deus são justamente “o começo da existência da verdade”. A civilização oriental sustenta que “a verdade não pode ser exprimida”. O Dao existe, mas não se exprime. Essa diferença entre o não manifesto e o manifesto quanto à “expressão” da verdade absoluta aparece no primeiro versículo do Daodejing e no primeiro versículo do Gênesis.
Primeiro versículo do Daodejing: “O Dao que pode ser exprimido não é o Dao eterno” (道可道非常道) (Daodejing, capítulo 1)
Primeiro versículo do Gênesis: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gênesis 1:1)
O não manifesto significa que nenhum ser humano, inclusive os profetas, pode exprimir a verdade absoluta. Para o manifesto, que crê em Deus e nos profetas como seres absolutos, o não manifesto, que rejeita toda expressão absoluta, é um pensamento hostil e inadmissível. O manifesto considera o conceito de não-ser (無), a inexistência, algo impossível, que a mente humana não pode ou não deve pensar. A tese do manifesto, que afirma que o absoluto pode ser exprimido, abre caminho para muitas religiões e, dentro de uma mesma religião, para cismas. A revelação significa que o profeta “transmite a palavra de Deus”. Nas religiões reveladas, o papel do profeta é absoluto. Deus não se exprime diretamente aos homens, mas por meio dos profetas. O profeta recebe a revelação e transmite aos homens os atributos de Deus como verdade absoluta. Nesse processo, os homens creem em Deus, aplicam a lei que Deus lhes deu e formam uma religião. Ao cristianismo, ao judaísmo e ao islã chamamos religiões reveladas (啓示). O cristianismo se divide, por sua vez, em catolicismo e protestantismo.
Os primeiros pensadores do manifesto parecem ter refletido longamente sobre o problema dessas divisões. Veem-se, de fato, em muitas passagens, os esforços do manifesto para se assemelhar ao não manifesto. Lendo o Daodejing e o Pentateuco, constata-se que, na origem, tanto o Dao do Oriente quanto o Deus do Ocidente se esforçaram por evitar exprimir a si mesmos. Eles haviam percebido, ao que parece, ao mesmo tempo a força e o perigo do manifesto. Para se proteger desse perigo, o Daodejing não para de repetir fórmulas que se recusam a exprimir o Dao.
Quando se lhe dá um nome, já não é o nome eterno. (Daodejing, capítulo 1)
O confucionismo também adere a essa posição do não manifesto. A um discípulo que lhe perguntava o que é a sabedoria (知), Confúcio respondeu: “Respeita os espíritos e os deuses, mas mantém-te distante deles, e dedica-te ao que se deve ao povo. Esta é a sabedoria do homem” (Analectos, “Yong ye”, 22). A passagem adverte contra a dependência cega dos espíritos e contra a superstição e insiste numa vida prática. Na civilização oriental, no taoísmo, no confucionismo e nas demais correntes, a tônica do não manifesto, “manter distância dos espíritos”, jamais mudou.
Também o judaísmo, em seus inícios, se esforçou para que o Deus do Ocidente recusasse o manifesto. No Êxodo, a Moisés, que lhe pergunta seu nome, Deus responde: “EU SOU O QUE SOU” (I am who I am). E lhe diz que explique que foi “EU SOU” (I am) quem o enviou. Trata-se de não revelar, tanto quanto possível, nem seu nome nem sua identidade. É o esforço de Deus para recusar o manifesto e permanecer no domínio do não manifesto.
Moisés disse a Deus: “Se eu for aos filhos de Israel e lhes disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou a vós’, e eles me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que lhes responderei?” Deus respondeu a Moisés: “EU SOU O QUE SOU.” E acrescentou: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU me enviou a vós.’” (Êxodo 3:13–14)
Cabe perguntar por que o Dao e Deus adotaram ambos essa atitude de recusa do manifesto. É por causa dos limites que o manifesto impõe a toda proposição de verdade absoluta. Pois dar um nome é começar a tornar manifestos o Dao e Deus. O Dao e Deus devem ser absolutos e eternos. No instante em que o ser humano os nomeia, revela sua forma ou os define, eles perdem uma parte de sua absolutez e de sua eternidade. Por isso o Dao e Deus não devem ter nome, já que todo nome concebido pelo ser humano é limitado. Evidentemente, também não devem ter forma, nem poder ser definidos na linguagem humana. Esse é o atributo mais importante do Dao e de Deus como verdade absoluta. O Dao e Deus devem ser “indizíveis”, “augustos demais para serem exprimidos”.
O esforço de Deus para conservar o atributo do não manifesto, relutando em revelar-se, manteve-se em parte: é o aniconismo (神無形論, aniconism) defendido pelas religiões reveladas, a proibição de figurar Deus em imagens ou de representá-lo visualmente. A ênfase que o taoísmo e o confucionismo põem no Dao (道) ou no Céu (天) sem forma, mais do que em imagens, também se liga ao pensamento do não manifesto, que pede que não se exprima a verdade absoluta.
Mas, ao revelar seu nome, Javé, o Deus do Ocidente começa a ter um nome. O ser que criou o céu e a terra precisa ter um nome19: só assim o ser humano pode designá-lo.
Deus falou ainda a Moisés e lhe disse: “Eu sou Javé. Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó como o Deus Todo-Poderoso, mas não me dei a conhecer a eles por meu nome, Javé.” (Êxodo 6:2–3)
Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus; pois o Senhor não deixará impune quem pronunciar seu nome em vão. (Êxodo 20:7)
Mas, quando Deus dá a conhecer expressamente seu nome, começa enfim o manifesto de Deus. Deus é personificado, assume forma humana, realiza milagres e governa os assuntos humanos. Por meio de Moisés, dá aos homens os Dez Mandamentos, firma uma aliança entre Deus e o ser humano, e a religião assume plenamente a forma de uma religião revelada. É a história do Pentateuco. O não manifesto do Dao e o manifesto de Deus são o ponto de partida da diferença essencial entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.
Os ocidentais, familiarizados com Sócrates, Descartes e Hegel, têm dificuldade em compreender o Dao como não manifesto. É que a civilização ocidental, absorvida pelo manifesto ao longo de toda a sua história da filosofia desde Sócrates, esqueceu o conceito de não manifesto. Em outras palavras, a civilização ocidental deixou ela mesma cair no esquecimento a tese do não manifesto que sustentavam filósofos gregos como Heráclito, que ocupavam um lugar importante na filosofia grega anterior a Sócrates. Chegou assim a uma visão de civilização fiel apenas ao manifesto e, portanto, parcial.20 No Ocidente, mesmo quem crê numa verdade absoluta é naturalmente tido por ateu se não adere ao sistema filosófico que as religiões reveladas exigem.
Na civilização grega, foram os esforços dos pensadores gregos do não manifesto que superaram essa parcialidade.
O confronto entre os pensadores gregos do não manifesto e do manifesto
Como o não manifesto se tornou já antes da nossa era a corrente dominante do pensamento oriental, o manifesto não teve lugar algum na civilização oriental.21 Na civilização ocidental, ao contrário, houve uma época em que o manifesto e o não manifesto coexistiam. No Ocidente, começou-se já antes do primeiro milênio a.C. a crer no politeísmo, uma tese do manifesto, e depois de Sócrates, Platão e Aristóteles o manifesto afastou o não manifesto e se tornou, filosoficamente, a norma da civilização ocidental. Mas, antes de Sócrates, o sistema filosófico grego conheceu durante vários séculos o confronto, ou a coexistência, do “manifesto vs. não manifesto”. Essa situação fascinante, em que o manifesto e o não manifesto se opunham filosoficamente, só se encontra na história do pensamento grego, considerando-se o Oriente e o Ocidente juntos.
Os pensadores gregos do não manifesto: Heráclito, Xenófanes, Demócrito, Pirro, Carnéades
Para encontrar no Ocidente a essência de uma filosofia do não manifesto, é preciso remontar à civilização grega anterior a Sócrates. Antes de Sócrates, pensadores do manifesto e pensadores do não manifesto se continham mutuamente, e o pensamento grego encontrava seu equilíbrio. A civilização grega atribuía então um papel importante à moderação (sophrosyne), ao destino (destiny) e à métis (metis, que significa mistura ou sabedoria astuciosa). A ideia de “destino”, em especial, servia de contrapeso ao pensamento do manifesto representado pelos deuses gregos. O próprio Zeus, o maior dos deuses gregos, tinha afinal de se submeter às deusas do destino. Isso mostra que a civilização grega, desconfiada do perigo do manifesto, que consiste em crer e seguir incondicionalmente os deuses ou a verdade absoluta, apoiava-se no senso de equilíbrio de uma filosofia do não manifesto que mantinha o manifesto sob controle.
A grande figura do não manifesto na filosofia grega é Heráclito. Ele viveu no século VI a.C. É um pensador que desenvolveu, na história da filosofia ocidental, um universo de pensamento singular, distinto da corrente principal seguida pela maioria. Carl Jung notou a singularidade da filosofia de Heráclito e reconheceu suas semelhanças com a civilização oriental. Explicou que, se a civilização ocidental tivesse sofrido a influência da filosofia de Heráclito, os ocidentais teriam hoje um universo de pensamento semelhante não ao dos cristãos, mas ao dos orientais:
Se o mundo ocidental tivesse sofrido a influência da filosofia de Heráclito, os ocidentais hoje não seriam cristãos: seriam como os chineses. Seguindo o pensamento de Heráclito, é possível ligar o Oriente e o Ocidente. 22
Houve de fato, entre os pensadores gregos, homens cujo universo de pensamento se assemelhava ao pensamento oriental; sua influência foi considerável até Sócrates e subsistiu ainda por muito tempo depois. Heráclito, que se pode chamar de filósofo representativo do não manifesto, foi homenageado por volta de 230, setecentos anos depois de sua morte, com uma moeda cunhada em sua memória.23 Na história da filosofia grega, podem-se citar cinco figuras principais do não manifesto: Heráclito (Heraclitus, 535–475 a.C.), Xenófanes (Xenophanes, 570–478 a.C.), Demócrito (Democritus, 460–370 a.C.), Pirro (Pyrrho, 360–270 a.C.) e Carnéades (Carneades, 214–129 a.C.).
Todos sustentavam que, como as provas da existência de Deus não são certas, era preciso debatê-la em vez de decidir. Não acreditavam na criação do céu e da terra; insistiam em que a natureza muda sem cessar e afirmavam que as relações entre todos os seres da natureza são de complementaridade, e não de oposição. Mantinham-se fiéis aos traços de uma filosofia do não manifesto. Adotavam o ceticismo (skepticism), isto é, a atitude de não crer sem mais em Deus, na verdade absoluta ou na alma, mas de questioná-los. Também ao falar do absoluto adotavam a posição da teologia negativa (apophatism): para debater sobre Deus, consideravam mais adequado dizer “Deus não é benevolente” do que “Deus é benevolente”. É a expressão típica de uma filosofia do não manifesto. Infelizmente, a filosofia desses pensadores do não manifesto se perdeu inteiramente, com exceção da de Pirro.
A perda da filosofia do não manifesto de Heráclito é especialmente lamentável. Ele viveu quase na mesma época em que Laozi deu ao mundo o Daodejing. Não se pode deixar de sentir o coração bater mais forte ao imaginar um encontro de pensamentos, um diálogo, entre Laozi e Heráclito. Pois, sem diálogo nem intercâmbio algum, ambos exprimiam um sistema de pensamento quase perfeitamente idêntico. A comparação entre o Dao de Laozi e o Logos de Heráclito poderia ser o começo de um diálogo entre o Oriente e o Ocidente que unisse suas civilizações. Heráclito é hoje difícil de compreender para os ocidentais; mas, na escala da humanidade inteira, tem o valor de um filósofo ocidental que anunciava uma nova possibilidade filosófica, capaz de abarcar as civilizações do Oriente e do Ocidente.
Sobre Pirro, é possível dizer mais, pois há um livro a seu respeito: os Esboços pirrônicos (Pyrrhonism), escritos por um filósofo ocidental cerca de quatrocentos anos depois da morte de Pirro, chegaram até nós. O que sabemos dos outros filósofos do não manifesto devemos às Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, de Diógenes Laércio (Diogenes Laërtius), no século III d.C. Nele encontram-se apenas anedotas e notícias fragmentárias sobre os filósofos eminentes. A maioria das posições expostas a seguir se baseia no que relata o livro de Diógenes Laércio.
Heráclito (Heraclitus) defendia uma filosofia da mudança da natureza e propunha não um dualismo de oposição, mas um dualismo de complementaridade. Explicava que o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a fome e a saciedade são todos complementares e mostram uma mudança cíclica. Tudo no mundo muda sem cessar, afirmava, de modo que não se pode pisar duas vezes no mesmo lugar de um rio. Via no Logos a verdade do universo e exprimia a ideia de que o Logos é eterno, mas os homens sempre manifestam a seu respeito opiniões diferentes. O Logos de Heráclito é, portanto, um pensamento que exprime a essência do não manifesto, como o “dao ke dao fei chang dao” taoísta (o Dao que se exprime não é o Dao eterno). De todos os conceitos propostos pelos ocidentais, o Logos é o mais próximo do Dao. O Dao do Oriente quer que o caminho da natureza seja encontrado e explicado pela experiência. Nesse sentido, o pensamento do Dao e a filosofia de Heráclito buscam o empirismo. Como observou Russell, Heráclito pode ser considerado um precursor do empirismo inglês, distinto do racionalismo continental. A filosofia da mudança de Heráclito se assemelha à do Dao, isto é, à mudança que exprime a ideia oriental de yi (易). Essa filosofia da mudança pode ser dita “devir incessante” (becoming). É o exato oposto do “ser imutável” (being) de Parmênides, de quem Platão foi herdeiro. O não manifesto acreditava numa filosofia da mudança em que tudo muda sem cessar, ao passo que a tese do manifesto de Parmênides sustentava que só o ser (being) é verdadeiro e que o não-ser (non-being) é ilusão. Heráclito acreditava que Deus não havia criado o universo, que o universo sempre existira, que era eterno e mudava sem fim. Em suas próprias palavras: “O universo, o cosmos, é eterno; nenhum deus nem homem o fez; ele sempre foi, é e será.” Heráclito também falava do bem e do mal em termos de yin e yang. Acreditava que, para o universo, o cosmos, tudo é justo, bom e legítimo, e dizia que a divisão que os homens fazem entre o bom e o mau é apenas relativa. Isso segue o conceito de complementaridade do yin e do yang: ele considerava que o bem e o mal são relativos e atuam como elementos complementares da mudança. Assim, surpreendentemente, Heráclito sustentava no Ocidente o núcleo do pensamento do Dao, o não manifesto, a probabilidade, a relatividade e a complementaridade, e se contrapunha à filosofia que a tese grega do manifesto então perseguia, fundada na manifestação, na causalidade, no absoluto e na oposição.
Xenófanes (Xenophanes) pensava que não podiam existir vários deuses, mas um só Deus. Dizia, porém, que o ser humano não pode compreender perfeitamente nem exprimir esse Deus único. Enfatizando que o pensamento humano é relativo e pessoal, descrevia o pensamento de Deus como absoluto e verdadeiro. Os gregos de seu tempo pensavam que os deuses sobrenaturais assumiam forma humana para realizar milagres, fenômeno que designavam como “antropomorfismo”. Mas ele pensava que Deus não podia ter forma humana. Foi além: o ser humano, observava, não pode ter ideias certas sobre as coisas, apenas ideias prováveis. O Deus que ele concebia se assemelha ao Logos de Heráclito: um Deus único, imutável, imóvel, presente em toda parte. Esse Deus estava, segundo ele, acima de todas as coisas, inclusive dos muitos deuses do politeísmo e dos homens, e diferia dos deuses humanos que os gregos de seu tempo imaginavam. Ele deixou este registro: “Os etíopes pensam que seus deuses têm a pele negra e o nariz achatado; os trácios, que os seus têm olhos azuis e cabelos ruivos”, e desmascarou o problema do antropomorfismo: “Se os bois ou os cavalos soubessem pintar, os bois pintariam Deus em forma de boi, e os cavalos, em forma de cavalo.”
Demócrito (Democritus) afirmava: “Tudo no universo é feito de átomos e de vazio; todo o resto não passa de nosso pensamento.” Dizia ainda: “O quente e o frio não passam, na realidade, de uma opinião; tudo pode ser explicado pela existência dos átomos e do vazio.” Via tudo o que acontece no mundo como acontecendo por necessidade: “O acaso é o nome que os ignorantes dão ao que não sabem.” Espinosa partilhava essa filosofia. Demócrito rejeitava a teleologia e defendia a necessidade, procurando assim compreender a existência do universo. Explicava que os homens têm religião porque querem ver nos fenômenos naturais excepcionais (trovões, relâmpagos, terremotos etc.) atos sobrenaturais em que Deus intervém. Sua filosofia natural sustentava que o que acontece no mundo acontece naturalmente, e não pela intervenção de Deus, e negava, por conseguinte, a existência de coisas como os milagres. Os filósofos gregos do não manifesto daquela época adotavam, diante das opiniões dos filósofos do manifesto e do público que os seguia, uma atitude ou de desconforto ou de zombaria. Heráclito pertencia à primeira; Demócrito, à segunda. Por isso os gregos chamavam Heráclito de “o filósofo que chora” (The Weeping philosopher) ou “o filósofo obscuro” (The Obscure philosopher). Pode ser também que o chamassem assim por sofrer de melancolia. Demócrito zombava de uma filosofia grega que deslizava para o manifesto. Por isso ficou conhecido como “o filósofo que ri” (The Laughing philosopher), talvez por seu temperamento jovial. Esses dois pensadores gregos, o que ri e o que chora, estão muito bem representados num quadro de Bramante, do Renascimento.
Pirro (Pyrrho) respeitava Demócrito e partilhava sua tese do não manifesto. Pirro passou a ser chamado de pai do ceticismo (skepticism), e seu pensamento ficou amplamente conhecido como pirronismo (Pyrrhonism). Seu ceticismo, o pirronismo, é da mesma linhagem do não manifesto. Ele sustentava: “Nada é certo; é preciso reconhecer em todas as coisas sua incompreensibilidade (incomprehensibility) e, em consequência, suspender o juízo (suspension of judgement).” Pirro ganhou assim o apelido de “aquele que suspende o juízo”. Pensava que é preciso “duvidar de tudo, mas nada concluir”. Considerava que os pensadores do manifesto não haviam revelado verdades cientificamente demonstradas, mas apenas tomavam por verdadeiro aquilo que supunham (supposition). Esse pirronismo, segundo o qual é impossível ao ser humano apreender uma verdade cujo termo ele não pode conhecer, encontra expressão semelhante em Zhuangzi, no taoísmo oriental: “A vida do homem tem fim. O saber do homem não tem. Querer ter certeza do que não tem fim por meio do que tem fim é perigoso” (Zhuangzi, “O princípio de nutrir a vida”, 1). Esse é o pensamento de Zhuangzi. Pirro afirmava que as sábias máximas que os sábios da Grécia transmitiam aos homens vinham todas do não manifesto: “Nada em excesso” (seek nothing in excess), “A fiança traz a desgraça” (suretyship is near calamity), entre outras. O pirronismo não admitia o dogma. Ele sustentava: “Ninguém tem sobre um dogma a mesma opinião que todos os outros. Mesmo quem admite um dogma pode, conforme o momento, passar a vê-lo de outro ângulo e com outro campo de visão.”
Carnéades (Carneades) venerava Crisipo (Chrysippus, 279–206 a.C.) a ponto de confessar ter aprendido tudo com ele. Crisipo já propusera, no século III a.C., uma filosofia que identificava a natureza e Deus. (No Ocidente, Espinosa surgirá cerca de dois mil anos depois como o filósofo que identificou a natureza e Deus.) O não manifesto de Carnéades difere em natureza do de Pirro. O pirronismo nem nega nem afirma a certeza; Carnéades, por sua vez, inclina-se para sua negação. Contrário à teleologia e ao determinismo, Carnéades deixou este conselho: prestar atenção ao acaso e à probabilidade. Afirmando que o moralismo (moralism) não está de acordo com as leis da natureza, sustentava que aquilo que chamamos de justiça não pode ser eterno, que é irracional e que só é invocado por necessidade, por algum tempo. Mas Carnéades tinha um lado prático. Pensava que o ser humano não pode exprimir a “verdade absoluta”, mas pode apreender a “verdade relativa”, limitada, de que precisa para viver, e que com essa verdade relativa pode viver e agir com retidão no meio em que vive.
Os pensadores gregos do manifesto: Parmênides, Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles
A história da filosofia grega é fascinante: nela se encontram ao mesmo tempo materiais filosóficos de grande variedade e de grande profundidade, como nas Cem Escolas da China das Primaveras e Outonos e dos Reinos Combatentes. Mas essa mesma variedade torna difícil compreender seu universo filosófico. Uma ótima maneira de se orientar é dividi-lo em antes e depois de Sócrates. É uma divisão frequentemente citada pelos filósofos ocidentais, mas, se nela se introduzem o manifesto e o não manifesto, ela fica ainda mais clara. Por volta do século IV a.C., a civilização grega começa a se organizar em torno do “manifesto”.
Podem-se citar cinco pensadores do manifesto representativos da filosofia grega: Parmênides (Parmenides, fim do século VI a meados do século V a.C.), Pitágoras (Pythagoras, c. 570–495 a.C.), Sócrates (Socrates, 470–399 a.C.), Platão (Platon, 427–348 a.C.) e Aristóteles (Aristoteles, 384–322 a.C.). Foram sobretudo os três pensadores Sócrates, Platão e Aristóteles que difundiram um sistema filosófico que reconhecia Deus como um ser absoluto e tinha firmemente a alma por um ser absoluto, dotado de um papel especial recebido de Deus. Crer na existência de Deus e afirmar a absolutez da alma: esse é precisamente o núcleo do manifesto. Esses filósofos tomaram a frente desse movimento, puseram ordem numa história da filosofia grega que buscava o equilíbrio entre o manifesto e o não manifesto e fizeram com que um manifesto consolidado dominasse a filosofia ocidental.
Sócrates é célebre por ter dito que “o homem comete erros por ignorância”, e exortava a buscar a verdade absoluta. Platão distinguiu, nas opiniões dos homens, a “opinião” e o “fato”, e sustentou com veemência que o ser humano deve buscar o fato, isto é, a verdade absoluta. Aristóteles considerava a metafísica o fundamento da filosofia; via a natureza como matéria e sustentava que, como só o ser humano tem alma, é preciso investigar a alma, que está acima da matéria. O que esses três filósofos, Sócrates, Platão e Aristóteles, têm em comum é o manifesto. Todos acreditavam em Deus, na alma e na verdade absoluta. Os pensadores gregos do não manifesto sustentavam que não se pode ter certeza dessas coisas e adotavam a atitude do não manifesto: “pensemos a respeito”. Os pensadores do manifesto opuseram-se às teses do não manifesto com firmeza, às vezes com agressividade. Sócrates, Platão e Aristóteles aprenderam o modo de pensar do manifesto com Parmênides e Pitágoras, ativos no século VI a.C.
Parmênides foi o fundador da escola eleática. Distinguiu no modo de pensar dos homens “a opinião e a verdade”, definindo a verdade como eterna e imutável e a opinião como um pensamento provisório e errôneo. Parmênides distinguia “o ser e o não-ser” e sustentava que só o ser é verdadeiro e que o não-ser deve ser inteiramente ignorado. Insistia na imutabilidade e na unidade do ser. Platão, seguindo seu exemplo, negou o não-ser e só se ateve ao ser. “A opinião e a verdade” de Parmênides se tornam, na “alegoria da caverna” de Platão, “a opinião e o fato”. Platão via a maioria dos homens viver na prisão da opinião; sustentava que precisavam sair dela para descobrir o fato e que todos os homens deviam avançar no caminho dessa descoberta. Negando a mudança, Parmênides via o mundo como essencialmente uno, sem mudar nem desaparecer. Isso exerceu grande influência sobre filósofos posteriores, como Platão e Aristóteles. Ele é considerado um pioneiro do pensamento lógico que, privilegiando o raciocínio racional sobre a experiência sensível, transformou a filosofia numa investigação metafísica. Depois de Parmênides, o pensamento ocidental deixou de admitir a diversidade do manifesto e do não manifesto e passou a um modo de pensar em termos de certo e errado.
Platão e Aristóteles aprenderam com Pitágoras sua teoria da alma. Pitágoras fundou a “escola pitagórica” e exerceu grande influência sobre a matemática e o misticismo religioso. Foi ele quem estabeleceu o teorema de Pitágoras: num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados. Afirmava que o fundamento do mundo é o “número” e que toda existência e toda harmonia se explicam por proporções numéricas. Explicava que os movimentos dos corpos celestes se harmonizam segundo proporções matemáticas, à maneira de uma ressonância musical. Pitágoras sustentava que a alma existe separada do corpo e que é eterna, como as verdades imutáveis do universo. Pitágoras viajou à Índia, e supõe-se que ali tenha conhecido a ideia da reencarnação e dela tirado sua teoria da alma. Acreditava também ser um homem reencarnado, que conhecia suas vidas anteriores, e insistia na importância dos ritos religiosos. Fundou, em consequência, uma “comunidade pitagórica”, onde se vivia em comum e sobre a qual reinava como mestre. Sustentava que a alma continua a existir depois da morte do corpo e que a essência do ser humano não é o corpo, mas a alma.
Por fim, na civilização grega, a “filosofia da verdade” de Parmênides e a “filosofia da alma” de Pitágoras se juntaram; a partir de Sócrates, a verdade e a alma se uniram para formar o núcleo do manifesto. Depois, na época de Platão e de Aristóteles, o manifesto se fortaleceu ainda mais. O importante é que, depois de Aristóteles, quando a civilização grega passou à época de Alexandre, o Grande, e se formou a civilização helenística, o manifesto se estabeleceu como o pensamento representativo do Ocidente. Alguns séculos mais tarde, com o advento do cristianismo, a filosofia e a religião se uniram, e a civilização ocidental se desenvolveu num sentido ainda mais manifesto.
Em consequência, o manifesto dominou o Ocidente como verdade absoluta por mais de mil anos. Na história da filosofia ocidental, o manifesto de Platão e de Aristóteles atraiu grande atenção e se difundiu amplamente no Ocidente. Os livros e o pensamento dos pensadores do não manifesto se perderam quase todos. O célebre quadro de Rafael, do século XVI, A Escola de Atenas, coloca Platão e Aristóteles em seu centro exato. Heráclito e os outros pensadores do não manifesto estão pintados nos cantos, na periferia. Esse quadro acabou por se tornar a obra que representa em imagem a civilização manifesta do Ocidente.
Numa civilização assim, os pensadores do não manifesto não podiam sobreviver. Mil anos depois do século IV, com o Renascimento do século XIV, abriu-se um mundo novo que pregava o retorno à civilização plural da Grécia e de Roma. Mas o sistema do manifesto continuou a dominar o Ocidente, apenas sob outra forma. O racionalismo ocidental, de que Descartes é o representante, prolongou justamente o pensamento do manifesto próprio da religião revelada. Começava uma situação em que a mente substituía Deus. Os pensadores ocidentais do não manifesto do século XVII, com Espinosa à frente, foram tratados como criminosos pelos pensadores do manifesto e tiveram dificuldade em exprimir livremente seu pensamento.
Nós, que vivemos no século XXI, influenciados pelo paradigma ocidental, também tomamos Sócrates, Platão e Aristóteles como os representantes da civilização grega e procuramos aprender com eles. Mas com isso corremos o risco de cometer o erro de analisar a filosofia oriental do não manifesto presos à posição ocidental do manifesto. Vivendo no século XXI, precisamos ampliar nosso horizonte filosófico. Como o século XXI é uma era de intercâmbio ativo entre as civilizações do Oriente e do Ocidente, precisamos compreender a filosofia do não manifesto que constitui o núcleo da civilização oriental. Para isso, é útil examinar o confronto entre os pensadores gregos do não manifesto e do manifesto.
4) Por que o Oriente escolheu o Dao, e o Ocidente, Deus?
Os conceitos do Dao e de Deus se formaram separadamente durante milênios, em civilizações do Oriente e do Ocidente distantes uma da outra. O Dao e Deus só se encontraram pela primeira vez na Idade Moderna. Houve um homem que foi o primeiro a vivenciar as civilizações do Oriente e do Ocidente e a compará-las filosoficamente: Matteo Ricci. Missionário cristão do Ocidente, foi enviado à China no fim do século XVI, viveu em Pequim e lá morreu. Manteve muitos intercâmbios com letrados chineses, vivenciou diretamente a cultura chinesa e enviou ao Ocidente relatos em que expunha sua posição sobre os aspectos filosóficos dessa cultura. Era um relato de ordem filosófica, diferente de As viagens de Marco Polo, do século XIII, que narrava sua experiência dos produtos e costumes do Oriente. Ele mencionava em especial os traços próprios do sistema de “verdade absoluta” da civilização oriental.
Longe de ser primitiva, a civilização oriental é mais antiga que a europeia, e os orientais possuem uma língua e uma literatura, bem como um sistema de crenças complexo e refinado, que em nada ficam a dever ao cristianismo ocidental. 24
O que terá sentido Matteo Ricci? Como terá compreendido o “sistema de crenças do Oriente”? Por meio de seus longos intercâmbios com os letrados confucianos, deve ter chegado a refletir sobre o Dao, que a civilização oriental tem por verdade absoluta. E deve ter chegado a comparar Deus, que o Ocidente tem por verdade absoluta, e o Dao, que o Oriente tem por verdade absoluta. Por que o Ocidente escolheu o Deus do manifesto, e o Oriente, o Dao do não manifesto?
Os ocidentais pensam ter escolhido Deus porque foram escolhidos por Deus. Isso se inscreve na linhagem de uma ideia fixa da filosofia ocidental, que vai de Aristóteles, na Antiguidade grega, a Hegel, no século XIX: foi por escolha de Deus que só os gregos receberam uma alma dada por Deus, e só os ocidentais uma mente dada por Deus. Aristóteles pensava que os bárbaros não gregos, privados de alma, em nada diferiam de escravos semelhantes a animais. É algo semelhante à ideia, de Montesquieu a Hegel, de que os orientais, desprovidos de uma verdadeira “mente”, teriam adquirido uma índole servil.25 Fizeram disso um grande pensamento filosófico, conferiram-lhe racionalidade, e os ocidentais se entusiasmaram com ele. Mas tais afirmações, fundadas nesse sujeito metafísico que é a mente, não têm outro fundamento aceitável senão a “crença” ou a “fé”. Era apenas o que os ocidentais queriam pensar e crer.
Mas outra explicação é possível, fora dessas crenças forjadas por eles mesmos. Pode-se encontrá-la no princípio da “autopreservação” (self-preservation), razão de ser comum com que nasce todo ser humano. O princípio da autopreservação é aquele que, como sustentaram Espinosa e outros, governa todas as realidades naturais, inclusive a natureza humana. Tanto a religião revelada de Deus quanto a lei natural do Dao se apoiam no princípio da autopreservação. Acredita-se que a mente tem o papel de julgar o certo e o errado; mas, em última instância, a mente julga e colore todas as coisas conforme elas ajudem ou não a autopreservação. Segundo essa explicação, pode-se considerar que o Oriente e o Ocidente escolheram, cada um, o Dao e Deus como o caminho mais adequado à sua própria preservação.
O meio geopolítico do Oriente oferecia ao ser humano condições em que a autopreservação podia se realizar da maneira mais eficaz no seio da natureza, por meio do Dao. A cultura oriental se concentrou na natureza: na bacia do rio Amarelo, berço da cultura chinesa, o ciclo das estações se repetia sem cessar, os conhecimentos sobre os fenômenos naturais se acumularam, e quis-se apreender as leis dos fenômenos e prever o futuro. Com isso, a necessidade de um Deus, que exige mobilizar uma imaginação não natural, e uma coloração religiosa centrada em Deus tornaram-se supérfluas. O Oriente não precisou desenvolver o mundo abstrato nem a análise filosófica dos conceitos próprios das religiões ocidentais. O que se acumulou foram conhecimentos concretos e empíricos dos fenômenos naturais, diretamente ligados à vida real. Para eles, a natureza era a grande mestra, o ser mais perfeito e mais acabado, e o ponto de partida de toda filosofia. Assim se formou no Oriente uma civilização que não buscava Deus ou uma verdade metafísica pela especulação e pela busca da lógica, mas que chegava à verdade do Dao da natureza tomando a natureza como modelo, aplicando-a e praticando-a na vida social. Essa é a origem da filosofia natural do Oriente, diante da religião revelada do Ocidente.
Também na civilização ocidental, pode-se considerar que os fatores geopolíticos que determinam a autopreservação são os mais importantes. O Ocidente viveu, em seu meio geopolítico, uma história de luta pela sobrevivência muito mais dura que a do Oriente. Num meio assim, a certeza de Deus se tornou o meio mais eficaz de se preservar. A história dos judeus, em particular, oferece o exemplo das mais duras provações vividas nesse contexto da autopreservação. Em guerras incessantes contra outros povos, os judeus foram feitos cativos e tiveram de sobreviver. A Bíblia e a história mostram que os judeus tiveram de viver como escravos ou cativos de outros povos: o cativeiro no Egito no tempo de Moisés, nos séculos XIV–XIII a.C., e o cativeiro da Babilônia no século VI a.C. O monoteísmo egípcio do deus sol, nos séculos XIV–XIII a.C., e o monoteísmo persa do zoroastrismo, nos séculos VII–VI a.C., exerceram influência nada desprezível sobre o pensamento do judaísmo do povo judeu. Judeus, egípcios e persas tiveram todos de garantir sua sobrevivência por meio de uma luta incessante contra povos estrangeiros. Todos sentiram a necessidade de crer num Deus único e poderoso e de se unir sob ele para sobreviver. O que esses monoteísmos têm em comum, sobretudo, é uma distinção nítida entre o bem e o mal. Por meio do Deus único, tornavam clara a distinção entre o bem e o mal e tinham clara consciência de que eles próprios estavam do lado do bem e seus inimigos, do lado do mal. Todos, crendo num Deus absoluto assim, fizeram-no servir à sua sobrevivência.
Só em 538 a.C., quando Ciro, o Grande, da Pérsia, conquistou a Babilônia, o povo judeu pôde pôr fim ao cativeiro e voltar à sua terra. Foi depois disso que o povo judeu começou a compor o Pentateuco. Esdras o concluiu após o retorno dos judeus a Jerusalém, em meados do século V a.C. Para sobreviver, os judeus construíram e desenvolveram metodicamente uma fé num Deus único e absoluto. Num meio implacável, em que era preciso apoiar-se num ser sobrenatural, os judeus sobreviveram à competição graças a uma fé absoluta numa lei estrita, os mandamentos de Deus. Com esse apoio, conseguiram se preservar.
Além de uma história em que precisavam sobreviver a lutas implacáveis, os ocidentais tiveram outro fator geopolítico para escolher Deus: a história da navegação, em contraste com a agricultura do Oriente. Por mais de três mil anos, os ocidentais avançaram pelo mar Egeu, pelo Mediterrâneo, pelo mar do Norte, pelo Atlântico, pelo oceano Índico e pelo Pacífico, e se voltaram para uma civilização marítima conquistadora. O Ocidente se expandiu avançando pela navegação num mundo aberto. O Oriente, ao contrário, cresceu durante milênios no meio fechado do continente leste-asiático. Essa diferença entre um mundo aberto e um mundo fechado produz hoje a diferença entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.26
Em seu mundo aberto, o Ocidente dá grande importância ao fenômeno que é a mente e, pressupondo a separação entre a mente e o instinto, busca uma liberdade e uma luta fundadas na mente. Num mundo aberto, o capitão que enfrenta o mar precisa da liberdade, e da vitória na luta, necessárias para tornar-se rei por si mesmo; isso faz nascer uma tendência a valorizar as próprias capacidades, isto é, as capacidades mentais.
Os marinheiros que se lançavam ao mar devem ter logo percebido o horizonte novo que a navegação lhes abria: uma liberdade e oportunidades de tipo particular. Podiam chegar facilmente às ilhas, e devem ter compreendido que nenhum rei, nenhum chefe tribal, podia persegui-los com segurança depois que tivessem partido de navio. Em outras palavras, todo capitão de navio podia tornar-se rei por si mesmo.27
O que sustenta poderosamente esse vigor e esse espírito empreendedor são as capacidades mentais de cada um; e essas capacidades, a mente, se desenvolvem apoiando-se em Deus. A civilização greco-romana, a civilização viking e a civilização ocidental moderna, que davam todas grande importância à navegação, apoiavam-se todas em Deus. A civilização ocidental buscou um Deus sobrenatural porque seu meio exigia o vigor e o espírito empreendedor necessários a um mundo aberto, bem como a certeza e o ser absoluto em que eles pudessem se apoiar eficazmente.
O taoísmo e o confucionismo se assemelham ao Ocidente por terem nascido num meio dominado pela guerra e pela competição: as Primaveras e Outonos e os Reinos Combatentes, que duraram cerca de setecentos anos. Mas é preciso notar que, nesse meio de luta, o Oriente e o Ocidente tinham maneiras diferentes de sobreviver. Essas guerras não eram, como no Ocidente, guerras em que se buscava vencer sozinho exterminando os povos estrangeiros ou reduzindo-os à escravidão, e sim guerras e rivalidades entre pessoas de um mesmo povo, que partilhavam uma mesma cultura. Na história do Ocidente, em meio à crueldade de povos inteiros exterminados, levados ao cativeiro, reduzidos à escravidão, um sistema de lei estrito, os mandamentos de Deus, era necessário à autopreservação. Mas, como as condições geopolíticas do Oriente eram as de uma luta pela sobrevivência dentro de um mesmo povo, de mesma cultura, pode-se considerar que ali a ética era mais útil à autopreservação do que um governo de leis estrito à maneira dos mandamentos de Deus.
Em suma, as verdades absolutas do Oriente e do Ocidente se formaram de maneira diferente a partir do princípio da autopreservação. O Dao e Deus são ambos expressões nascidas do coração humano. O coração humano já existia antes do Dao e de Deus.
Pela fé, o ser humano manifesta sua reverência ao céu; honrando seus ancestrais, adquire um coração reto. Mas o coração humano já existia antes da fé em Deus e do respeito aos ancestrais. 28
O coração humano que atravessa o Oriente e o Ocidente é um só. Foi o coração humano que, em busca da verdade absoluta, criou o conceito de Dao no Oriente e o de Deus no Ocidente. Isso faz parte dos esforços do Oriente e do Ocidente para se manter fiéis ao princípio da autopreservação, nas condições geopolíticas em que cada um se encontrava.