1) O ren (仁) e o amor (愛): uma ética acima de todas as doutrinas
A humanidade inventou a escrita por volta de 3000 a.C. É daí que parte o que se chama de “história”. E cerca de dois mil anos depois, as sociedades humanas começaram, em muitos lugares, a fazer desabrochar uma civilização espantosa. Houve um único período de explosão desse tipo: aquele que Karl Jaspers chamou de “era axial”. Em poucos séculos apenas nasceram, um após o outro, os grandes mestres da humanidade, Confúcio, Laozi, Sócrates, o Buda e Jesus, e, um pouco mais tarde, Maomé. Eles se concentraram na questão fundamental de saber como viver na sociedade humana. À pergunta “Como devemos viver?”, os grandes mestres da humanidade propuseram cada um uma resposta: o amor ao próximo (love your neighbor) do cristianismo, o ren (仁, empathy) do confucionismo, a compaixão (compassion) do budismo, a fraternidade (brotherly love) do islã.
Olhando de perto, essas respostas se reduzem a uma só. O que propuseram à humanidade é a mesma ética. As maneiras de dizê-la diferem, mas todas significam o “amor ao próximo”.
O ren (仁) é amar os outros. (Analectos, XII, “Yan Yuan”)
Ama o teu próximo como a ti mesmo. (Levítico 19:18, Mateus 22:39)
Por que o amor ao próximo? Isso tem a ver com a natureza humana. Todo ser humano, sem exceção, nasce com “um egoísmo poderoso e um altruísmo fraco”. A sociedade humana só se mantém se eles forem harmonizados. É preciso, portanto, que o altruísmo fraco abrace o egoísmo poderoso. O meio para isso é o amor ao próximo.
A cobiça pelos bens e o desejo de honras são o que há de mais poderoso no ser humano e, por eles, os seres humanos competem para passar à frente dos outros. Algumas pessoas notáveis compreendem o altruísmo, aplicam-no à sua vida e se tornam dirigentes (junzi, 君子). Mas a maioria dos seres humanos, os participantes (xiaoren, 小人), é arrastada pelo egoísmo e vive a vida inteira sem conseguir escapar da cobiça. Por natureza, o dirigente não difere do participante. Em outras palavras, a natureza humana mais poderosa, comum ao dirigente e ao participante, é o egoísmo, isto é, a cobiça. Essa cobiça às vezes é regulada e gerida pela mente, mas, muitas vezes, a mente a amplia e a fortalece ainda mais. Afinal, a gestão da cobiça é o cerne da ética.
A gestão da cobiça se faz pela mente. Na natureza humana, o papel da mente é de importância decisiva, mas limitado. A mente não pode gozar da liberdade de uma fonte de luz. A mente é apenas um espelho. Esse é o domínio que lhe cabe na natureza humana. Se a mente tenta sair do campo de ação inerente ao instinto para agir como fonte de luz, expõe o ser humano a um perigo mortal, pois então se usa a mente para legitimar a busca da cobiça e ignorar a ética. É aí que está a importância da ética. O que impede a mente de se desviar é a ética.
A diferença entre o Oriente e o Ocidente nas relações entre os seres humanos aparece claramente quando se comparam o confucionismo oriental e o cristianismo ocidental. Os ensinamentos de Confúcio e de Jesus apresentam uma profunda semelhança: o ren (仁), isto é, o amor ao próximo. Mas, apesar desse mesmo ponto de partida, o Ocidente procurou afinal resolver as relações humanas pelos mandamentos (o Estado de direito), e o Oriente, pela ética. Jesus, como Confúcio, nos ensinou a ética comum da humanidade, o amor ao próximo. O ren (仁), que o confucionismo põe como o mais alto valor entre os seres humanos, Confúcio o definiu como o amor aos homens. Jesus também nos deixou a parábola do bom samaritano: ama o teu próximo, qualquer que seja sua fé ou sua tribo. Deixou uma ética universal. A civilização oriental guardou firmemente suas ideias centrais: o Dao da natureza e o ren (仁) da sociedade humana que nele se funda. É uma ética universal que ultrapassa todas as religiões, todas as tribos e todo pensamento científico. A civilização ocidental, ao contrário, seguindo a doutrina religiosa, oscilou sem cessar, dilacerada entre as obras (a ética) e a fé (a religião). Sob a influência do cristianismo, apesar de muitos esforços para conciliar a fé e o amor, a religião, na realidade e na história, privilegiou a fé sobre as obras. O princípio da autopreservação estava em ação.
A história ocidental mostra que, inevitavelmente, o critério importante para julgar um ser humano foi não saber se ele pratica boas ações, mas se é cristão. Só depois de meados do século XX o Ocidente chegou a procurar sair da ética de dominação centrada na tribo de Aristóteles e da ética de dominação centrada na religião, para aceitar uma ética universal independente da tribo ou da religião. É uma felicidade. Mas a herança de uma ética de dominação praticada por muito tempo permanece um fardo pesado, pois impregna até o menor recanto a filosofia e os sistemas de pensamento ocidentais.
Muitos filósofos ocidentais sustentaram até o início do século XX que os ocidentais, biologicamente superiores aos orientais, tinham passado a ter uma civilização superior. Nesse caso, não precisaríamos mais procurar a causa. Bastaria aceitar que os ocidentais eram biologicamente superiores aos orientais e que a civilização ocidental se tornou assim superior à oriental. Mas, se orientais e ocidentais partilham, como Homo sapiens, os mesmos traços genéticos no mesmo estágio da evolução, a questão é outra. Pois a diferença entre as civilizações do Oriente e do Ocidente não vem de uma diferença de raça. É preciso admitir que ela vem da interação entre o ser humano e seu meio, em outras palavras, do meio, isto é, da diferença de civilização.
Na civilização oriental, como a própria ética, sem religião, é o cerne da civilização, não é preciso impor uma ética contida numa doutrina religiosa. Ela faz da ética uma filosofia política, distinguindo o sábio e o povo do taoísmo, o dirigente e o participante do confucionismo. O sábio e o dirigente são justamente a expressão de uma política ética. Na civilização ocidental, a questão da ética está ligada à do bem e do mal. O ser humano come o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e é expulso do paraíso, o jardim do Éden. Antes de comê-lo, diz-se, o ser humano vivia sem trabalhar no paraíso do Éden, com os outros animais. Mas, ao comer o fruto, é banido do paraíso.
Por ter uma mente, o ser humano, diferentemente dos outros animais, cai na armadilha de buscar sem fim a própria cobiça. Como conta a religião, o ser humano, uma vez de posse do fruto do conhecimento do bem e do mal, a mente, precisa, diferentemente dos outros animais, trabalhar sem cessar para buscar sua cobiça. Ao comer o fruto, o ser humano abriu os olhos para a mente e, por ter uma mente, passa a distinguir o bem do mal. Mas, se pensa e age como se a mente pudesse distinguir à vontade o bem do mal e fazer o que lhe agrada, toma muitas vezes decisões que quebram sua promessa a Deus. Esse é o limite da mente e a armadilha que ela esconde. A mente pode conduzir para o bem a cobiça latente no instinto, mas também pode conduzi-la para o mal. Aí está a advertência dirigida ao ser humano por meio do fruto do conhecimento do bem e do mal. Essa advertência é a necessidade da ética, isto é, a razão de ser dos Dez Mandamentos.
Mas a história, muitas vezes, não mostra o ensinamento aplicado tal qual em matéria de ética. Conforme as circunstâncias, formam-se dogmas que destroem o amor ao próximo. Mas esses dogmas são feitos pelo ser humano e têm apenas um valor limitado no tempo e no espaço. Há na religião dogmas envoltos em fé. O confucionismo também tem seus dogmas, como as regras estritas do culto dos ancestrais. O budismo adotou dogmas alheios a seu ensinamento primeiro, como o inferno e o paraíso. Mas os dogmas não podem encobrir o amor ao próximo. Por isso o amor ao próximo é ainda mais necessário:
Por isso, não podemos senão concluir que quem persegue um homem honesto e justo simplesmente porque suas opiniões diferem, porque seu credo ou sua doutrina diferem, esse sim é o Anticristo (anti-Christ). 326
Os Dez Mandamentos de Moisés foram feitos quando os judeus fundavam e erguiam sua nação, isto é, quando podiam reivindicar a justiça. Isso se devia a um contexto em que a simples insistência na fé podia ajudar a sobreviver. Mas, na época em que Jesus viveu, os judeus não estavam em posição de reivindicar a justiça. O povo judeu havia sido conquistado por Roma. E, como o pensamento helenístico se espalhara então pela região do Mediterrâneo, o judaísmo também precisava ampliar seu olhar do povo judeu para os seres humanos do mundo inteiro. Essa foi a causa do nascimento do cristianismo.
No tempo de Jesus, o helenismo se tornou o espírito da época. O helenismo é o pensamento grego espalhado pelo mundo mediterrâneo. Nasceu depois das conquistas do Egito, da Pérsia e da Índia por Alexandre, o Grande. Depois da morte de Alexandre, seus generais fundaram vários reinos em torno do Mediterrâneo, na Pérsia, no Egito e numa parte da Índia, e o helenismo nasceu da absorção, pela civilização grega, das civilizações dos países conquistados. Geopoliticamente, o helenismo ganhou um forte caráter cosmopolita e coincidiu com a época em que se espalhava a teoria do manifesto, que busca a verdade absoluta, representada por Sócrates, Platão e Aristóteles.
O cristianismo também nasceu no momento em que Deus devia deixar o caráter tribal do judaísmo para se estender ao mundo inteiro. Nessas circunstâncias, não se podia reivindicar uma justiça do “olho por olho, dente por dente”, como na lei de Moisés. Só podia sair daí uma ética nova: “Amai os vossos inimigos”, “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda”, “Se alguém quiser tomar a tua túnica, deixa-lhe também o manto”. Pode-se ver em Jesus alguém que havia apreendido a relatividade da lei e chamava a superá-la. “Jesus foi enviado não para preservar uma nação e estabelecer suas leis, mas para ensinar a única lei universal.” 327 No Antigo Testamento, pelo mandamento de Deus, quem trabalha no dia de sábado deve ser morto. Mas Jesus deixou claro que o sábado foi feito para o ser humano. O valor de Jesus está nisto: em meio a uma corrente que reivindicava a justiça judaica para preservar um Estado tribal, e no auge do poder romano, em que a força fazia as vezes de direito, ele descobriu, sozinho, uma ética que transcende o tempo e o espaço: “Ama o teu próximo como a ti mesmo.”
“Se eu não for por mim, quem será? E, se eu for só por mim, o que sou?” A resposta a essa pergunta enigmática do Talmude não teria sido dada por Jesus? Confúcio também propõe uma resposta, que exprime o mesmo pensamento que Jesus: “Não posso viver em bando com as aves e os animais. Se não sou alguém que vive entre os homens, o que sou?” (Analectos, 18:6) O confucionismo, ao exigir três anos de luto depois da morte de um dos pais, suscitou muitas controvérsias. Passagens que exigem três anos de luto também figuram nos Analectos. Mas o ren (仁) de Confúcio em nada difere do amor ao próximo de Jesus, o amor do samaritano (Samaritan Love). Confúcio afirma claramente que o ren é amar os homens: “Um discípulo o interrogou sobre o ren. Confúcio respondeu: o ren é amar os homens” (Analectos, 12:22, “Yan Yuan”). Sima Niu disse com ar preocupado: “Os outros têm todos irmãos; só eu não tenho.” Zixia disse: “Ouvi dizer que a morte e a vida dependem do destino, e que a riqueza e as honras dependem do Céu. Se o dirigente é atento e não comete falta, se é respeitoso e cortês no trato com os outros, todos os homens entre os quatro mares são seus irmãos. Por que o dirigente se afligiria por não ter irmãos?” (Analectos, 12:5). O sentido profundo de Confúcio jamais foi ensinar uma lealdade e uma piedade filial incondicionais, nem relações rígidas de pai e filho e de soberano e súdito.
O que Confúcio pintou como a sociedade ideal suprema é a Grande Unidade (大同社會), em que “não se tem apenas os próprios pais por pais, nem apenas os próprios filhos por filhos”. 328 A política também visa a Grande Unidade: a política é que o rei aja como rei, o ministro como ministro, o pai como pai e o filho como filho. 329 Nesse contexto, Mêncio sustentava que um rei que abandona seu povo se torna um simples bandido (殘賊), que quebrou a justiça e o ren, e que tal rei deve ser destituído. Mêncio é talvez o primeiro filósofo, no Oriente como no Ocidente, a ter sustentado os direitos do povo diante do soberano. No Ocidente, uma filosofia semelhante só aparece com Locke e Rousseau, nos séculos XVII e XVIII. Mêncio sublinhava a importância da política e a responsabilidade do soberano: assim como não há diferença entre matar um homem com um porrete e matá-lo com uma lâmina, não há diferença entre matá-lo com uma lâmina e matá-lo por um mau governo.330 Pouquíssimos ocidentais compreenderam o verdadeiro sentido de Confúcio. A maioria só o conhece como alguém que pregava um culto dos ancestrais ultrapassado.331
A compaixão budista vs. o nirvana
As grandes migrações dos povos, que derrubaram o Império Romano e, com ele, a civilização ocidental antiga, não se limitaram à Europa. Na China também, na mesma época, “bárbaros” invadiram o país em massa e ocuparam todo o território, enquanto afluía uma cultura estrangeira, o budismo; durante cerca de trezentos anos, do século III ao VI, na época dita das Seis Dinastias (六朝), a China viveu a maior crise de sua história, não só política, mas cultural. Foi uma crise maior, comparável à queda dos Qing e ao afluxo da civilização ocidental que a China conheceria cerca de 1.500 anos depois.
Se a cultura oriental tivesse sido, como a cultura ocidental, uma cultura do manifesto, ou se o budismo, em vez de se limitar à ética, tivesse sido uma cultura global que abrangesse todos os aspectos da cultura, político, militar, econômico, como a cultura ocidental ou oriental, o império chinês talvez tivesse perecido como o Império Romano. Mas a China não se contentou em renascer como Estado e fundar a dinastia Tang: “sinizou” o budismo, tirou dele uma energia nova sem perder a essência da cultura chinesa e viveu também um renascimento cultural. Assim a China manteve, durante cerca de mil anos, uma superioridade cultural e política sobre o Ocidente.
Que efeito teve sobre a China o budismo, que tornou possível o renascimento da cultura chinesa? E, inversamente, que efeito a cultura chinesa teve sobre o budismo? O que significa o dito segundo o qual “o budismo se sinizou mais do que a China se budizou”? Como explicá-lo à luz da separação ou da harmonia entre a mente e o corpo, que tomamos como critério de distinção das culturas, isto é, das culturas do manifesto e das culturas do não manifesto? A religião indiana tradicional, o bramanismo, separa, como o judaísmo de Moisés, a mente e o corpo. Brama (Brahma), na religião indiana, corresponde ao Deus das religiões reveladas; ambos são sobrenaturais. É o que os Upanixades (Upanishad) exprimem bem.
Por ignorância, o homem envolve seu verdadeiro eu e toma o invólucro da matéria por si mesmo; transcendendo-o, torna-se um com o Brâman, que é pura bem-aventurança.332
Na Índia, a mente (Atman), separada do corpo, esforça-se por alcançar o Brâman e, nesse esforço rumo a um Brâman fora de alcance, o corpo é um fardo. Daí só resta sair do corpo. O Buda chocou e horrorizou seus cinco companheiros ao recusar-se a prosseguir as austeridades e ao pedir a comida das pessoas comuns. Ele havia compreendido que toda verdade que o ser humano pode alcançar pode sê-lo por um cérebro bem nutrido num corpo são. Tal pensamento era inteiramente novo e estranho àquela época e àquele país.333 O que o Buda, que havia compreendido a harmonia entre a mente e o corpo, sentiu ao mesmo tempo foi, naturalmente, que você e eu não podemos ser separados e devemos estar em harmonia: é o que aparece na ideia de compaixão.
Uma atitude realista, concentrada nessa ideia de compaixão, é sublinhada no budismo do Buda. Que o Buda tenha rejeitado a atitude transcendente do hinduísmo tradicional, isto é, seu gosto metafísico, e privilegiado os problemas reais da vida, os problemas de você e de mim, é o que mostra bem um episódio relatado no Majjhima Nikāya. A Māluṅkyaputta, que exigia explicações sobre questões semelhantes às antinomias metafísicas de Kant, o mundo é eterno ou não, é infinito ou finito, a alma e o corpo são idênticos ou separados, o Perfeito (聖者) continua a viver depois da morte ou simplesmente deixa de ser, o Buda responde assim.
Māluṅkyaputta, a vida religiosa não depende do dogma segundo o qual o mundo é eterno ou não. Exista ou não tal dogma, restam o nascimento (生), a velhice (老), a morte (死), o pesar (哀), as lamentações (悲嘆), a infelicidade e o desespero, os sofrimentos desta vida cuja destruição eu ensino·····.334
O budismo, diferentemente do judaísmo ou do bramanismo, não supõe oposição entre a mente e a matéria. A atividade da mente é compreendida como uma função humana entre outras, como a atividade de qualquer outra parte do corpo. O Buda não prega sobre o atman, cerne do bramanismo. Tampouco explica qualquer substância metafísica permanente e imutável. O Buda, como Confúcio, considerava-se simplesmente um ser humano. Eles não se apoiavam no poder de Deus ou de um ser transcendente. O budismo, como o confucionismo, explica apenas como melhorar este mundo e como o ser humano pode viver uma vida melhor. Nesse sentido, o budismo, como o taoísmo e o confucionismo, é não uma religião do manifesto, mas uma filosofia ética fundada no não manifesto. Criar um ser absoluto ou transcendente e identificar-se com ele vem, afinal, de uma ideia egoísta de autopreservação, e é o primeiro passo no caminho que separa o eu do você.
Há na psicologia de todo indivíduo duas raízes: o instinto de autoproteção e o instinto de autopreservação. Para se proteger, o ser humano passou a buscar Deus. Para se preservar, o ser humano imaginou um atman que vive eternamente, isto é, a imortalidade da alma. Na ignorância, na fraqueza, no medo e no desejo, o ser humano crê nessas duas coisas, consola-se e tranquiliza-se com elas. É por isso que o ser humano se agarra a elas e mostra por elas uma paixão fanática.335
Rejeitar a divisão entre o instinto e a mente da época do Buda e negar a diferença entre o eu e o você é uma atitude verdadeiramente revolucionária. O Buda, como Jesus, parece ter previsto que seu ensinamento se chocaria com uma grande oposição. O Buda, que se opunha ao pensamento metafísico, advertia contra a atitude de autojustificação que o pensamento metafísico muitas vezes tira como conclusão.
Não é justo que quem ama a verdade conclua, em sua própria justiça, que só isto é a verdade e que todo o resto é falso. Um homem pode ter uma crença. Se ele diz: “Esta é a minha crença”, diz a verdade. Mas não deve ir além e adotar a posição absoluta segundo a qual só a sua crença é justa. Ninguém está em posição de dizer que só isto é a verdade e que todo o resto é falso.336
Rompendo com o costume das austeridades e negando a existência do atman, o Buda rejeitou a separação entre a mente e o corpo. Rejeitando o bramanismo, o Buda rejeitou a separação entre você e eu. O ensinamento do Buda se apoia numa profunda filosofia que identifica o outro e o eu (彼我). Ele considerava que as relações entre os seres humanos devem ser governadas pela compaixão antes de qualquer outra coisa. Nisso, a ideia de compaixão do Buda partilha sua essência com o ren (仁) de Confúcio, o amor de Jesus e a fraternidade de Maomé. Como Jesus e Confúcio, o Buda não deixou ensinamento escrito. Seus ensinamentos foram rememorados e compilados por indianos ao longo dos três a sete séculos seguintes.337 É, portanto, muito difícil separar o verdadeiro do falso entre a essência do ensinamento do Buda e o que seus discípulos transmitiram.
Nesse processo, o budismo popular passou a dar grande importância ao nirvana (nir significando o nada, o vazio; vā, o sopro, 氣). O nirvana é o estado alcançado quando o fogo se apagou: as paixões e os apegos inteiramente extintos. Quando o ser humano entra no nirvana, diz-se, rompe inteiramente a cadeia do sofrimento e dos renascimentos e alcança a libertação. Muitos pensam que o nirvana é o cerne do budismo. E alguns creem no budismo para alcançar eles mesmos o nirvana, pensando que o Buda o alcançou. Mas o Buda pouco falou do nirvana. Além de defini-lo como o nada (無) ou o vazio (空), deu poucas explicações sobre ele. O nirvana segue o mesmo caminho que o paraíso cristão e a felicidade dos gregos. Tem seu atrativo, mas, afinal, é uma expressão e um ponto de referência metafísicos.
Todos os grandes pensadores da humanidade concluíram que o fundamento da ética humana é o “amor ao próximo”. A ética do amor ao próximo que o Buda, Confúcio, Jesus e Maomé nos deixaram é a abreviação da fórmula “ama o teu próximo como amas a ti mesmo” (love your neighbor as you love yourself). O amor ao próximo se torna, afinal, a única ética da humanidade: “O Novo Testamento ensina que toda a lei se resume a uma só lei: ‘Ama o teu próximo.’” 338 “Repitamos uns aos outros, dia após dia: a moral é uma só e vem de Deus; os dogmas diferem e são obra dos homens.”339 No entanto, muitos ainda se enganam sobre essa ética, explicada tão claramente há tanto tempo. 340
Ainda vivemos na incompreensão dos ensinamentos de Confúcio e de Jesus. O ser humano não pode viver sozinho. Façamos o que fizermos, agir por si e agir pelos outros só podem estar misturados. O ren (仁) significa um amor ao próximo relacional. Nos Analectos, Confúcio pergunta: “Não se pode viver na companhia das aves e dos animais. Se não com meus semelhantes, com quem estarei?” E o Talmude pergunta: “Se eu não for por mim, quem será? E, se eu for só por mim, o que sou?” A resposta já foi dada.
Como Jesus, o Buda não deixou ensinamento escrito. Seus ensinamentos foram rememorados e compilados por indianos ao longo dos três a sete séculos seguintes.341 É, portanto, muito difícil separar o verdadeiro do falso entre a essência do ensinamento do Buda e o que seus discípulos transmitiram. Como o Buda não buscava a salvação individual, o nirvana não pode ser a essência de seu ensinamento. O Buda aspirava à libertação e à salvação de todos os seres. Se o nirvana significa “a salvação individual”, “o corte do desejo”, “a extinção da sede”, “a libertação do ódio”, “a fuga da ilusão”, “um estado de perfeita sabedoria”, “o resgate” etc., não difere do estado em que, no bramanismo, o atman se torna um só com Brama. Nesse caso, o budismo já não difere do bramanismo.
Gautama disse: É realmente difícil pregar às pessoas comuns. Elas se apegam a superstições vulgares e seguem de bom grado tudo o que seus sentimentos lhes sussurram.342
A terra da Índia não acolheu Gautama naquele tempo. Tampouco acolhe o Buda hoje. O bramanismo, depois de um breve recuo, voltou com força (捲土重來) e se enraizou mais firmemente do que nunca na terra da Índia. O mesmo vale para Jesus. A Galileia foi hostil a Jesus. Tampouco o acolhe hoje. O judaísmo reconquistou a Galileia mais firmemente que antes. Parece que os profetas estão fadados a ser perseguidos em sua pátria. Os apóstolos de Jesus envolveram seu ensinamento límpido, “ama o teu próximo como a ti mesmo”, em mitos e dogmas de todo tipo. Os discípulos de Gautama agiram do mesmo modo. Inventaram o mito do nirvana e envolveram com ele o verdadeiro ensinamento do Buda, a compaixão.
O Buda se levantou contra o bramanismo porque o estado de nirvana de que este falava, em que o atman e Brama se tornam um só (Brahmanic Nirvana), significava uma salvação individual fria e seca, sem nenhuma consideração pelos outros. O Buda censurou certa vez os sacerdotes brâmanes por não se empenharem na libertação dos seres e por não terem nenhuma compaixão pelos outros. Por isso é preciso pensar o nirvana em ligação com a compaixão pelos outros. O nirvana que o Buda ensinava não podia ser alcançado sozinho. É um nirvana que se alcança por meio dos outros.
Na vida cotidiana dos indianos de seu tempo, o Buda viu o dukkha (苦: a dor e a angústia). E, para suprimir esse sofrimento, procurou suprimir o desejo. É por isso que o Buda pregava o nirvana como o nada (無) ou o vazio (空). Mas o coração humano não pode permanecer nada ou vazio. A lei “A natureza tem horror ao vácuo” (Nature abhors vacuum) se aplica também ao coração humano. Quando se arrancam do coração humano os maus desejos que causam o ódio, a inveja, a luta e a discórdia, é preciso que outra coisa ocupe seu lugar. O Buda considerava que esse lugar deve ser preenchido justamente pela compaixão.343 Quando os desejos negativos desaparecem do coração humano e ele se enche de um desejo positivo e fecundo, isto é, de compaixão, então o ser humano passa a ter o sentimento de não se distinguir mais dos outros.
O nirvana, portanto, só pode ser alcançado pela relação entre si e os outros, isto é, pela compaixão. O nirvana é inseparável da compaixão. O nirvana é a compaixão plena, e a compaixão pura é o nirvana. O momento exato em que se faz, nessa tomada de consciência, a experiência da unidade entre você e eu e, além disso, da unidade entre mim e a natureza e o universo é o momento em que se faz a experiência do nirvana.344 Segundo a lenda budista, o Buda fez a experiência desse estado aos trinta e cinco anos. E procurou dá-lo a conhecer a todos os seres.
2) Como o culto de Deus e o amor ao próximo podem evitar a contradição?
À pergunta “Por que vivemos?”, uma resposta simples pode ser a dedicação ao progresso. Perseguir uma visão pode ser o meio mais seguro de encontrar um sentido para a vida. O progresso passa a visar uma visão que a mente persegue à frente. A busca de uma visão é a marca da civilização ocidental, da religião revelada à era das ideologias do século XX. O problema é que, à luz da história, toda busca de uma visão fracassa em alcançar o objetivo que de início se fixara. Ao mesmo tempo, a ética se perde no caminho. A visão que a religião revelada ou a ideologia propõem consiste em difundir e seguir a doutrina de Deus ou a verdade metafísica e, ao pô-la ativamente em prática, só se pode ferir o amor ao próximo. Ela provoca o que se pode chamar de conflito entre a ética e a visão.
O confucionismo e o cristianismo não diferem em propor uma só e mesma ética, o amor ao próximo. Mas, entre Confúcio e Jesus, os Analectos e a Bíblia mostram uma nítida diferença. Em Confúcio, o ensinamento é claro e nítido. Confúcio não reconhecia nenhum outro valor que impedisse o estabelecimento das relações entre os seres humanos. Atém-se a um humanismo profundo, segundo o qual o ren (仁) só pode se realizar pelo esforço humano. Em outras palavras, interessa-se, de ponta a ponta, apenas pelo mundo real e recusa qualquer papel ou existência ao outro mundo, à morte ou a Deus. O ensinamento de Confúcio “Em matéria de ren, não se cede nem mesmo ao próprio mestre” (Analectos, 15:35, “Wei Ling gong”) significa isso. O sentido do ren é que é preciso encontrar um bom mestre ou bons companheiros e compreendê-lo juntos; o ren não se realiza nem pelo ensinamento das Escrituras, nem pela doutrinação de um mestre, nem pelo mandamento ou pela coerção de Deus. A ética única que o Oriente propõe à sociedade humana se exprime bem também, na ética política, na filosofia do dirigente que “coopera sem ser idêntico”: “O dirigente coopera sem ser idêntico. O participante é idêntico, mas não coopera” (Analectos, 13:23).
Mas, em Jesus, o ensinamento que seus discípulos deixaram não é tão nítido quanto em Confúcio. Segundo o Novo Testamento, ele toma uma posição que se preocupa com este mundo e com o outro, com a vida e com a morte, com os homens e com Deus. Suas lições se resumem em duas: a fé e o amor. O cristianismo afirmou sua posição por uma lei explícita: “A lei de Deus é dupla. A primeira é adorar a Deus, e a segunda é amar o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12:30–31; Mateus 22:36–40). Ao mesmo tempo, o ensinamento do amor ao próximo, “ama o teu próximo como a ti mesmo”, é claramente transmitido pelo apóstolo Tiago: “a fé sem as obras é morta… o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tiago 2). Afinal, o cristianismo tem dois ensinamentos absolutos: o amor ao próximo e a adoração de Deus. Ensina ao mesmo tempo a ética e a fé.
Ora, historicamente, o “amor ao próximo” (love your neighbor) e a “adoração de Deus” (obey your God) se chocaram com muita frequência.
Que a fé e a ética só possam trair uma à outra é uma marca da civilização de Deus. Se existe um só caminho para que a fé (a lei) e a ética (o amor) não se contradigam, é crer que “ama o teu próximo como a ti mesmo” é a única lei de Deus. Nesse caso, a ética e a fé se tornam uma mesma coisa, e a ética se torna absoluta, algo que não se deve afastar em caso algum. Mas a fé vista por esse ângulo está longe da definição de fé que os ocidentais tinham, pois é uma declaração segundo a qual a ética vem antes da fé. De fato, até o apóstolo Paulo, que desempenhou o papel-chave na propagação do cristianismo, semeia a confusão ao defender ora a fé, ora o amor:
A fé: Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, e não pelas obras da lei. (Romanos 3)
O amor: Agora, pois, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior delas é o amor. (1 Coríntios 13)
Essas doutrinas parecem ter nascido no decorrer da propagação do cristianismo. Muitos pensadores escreveram que a lei de Deus registrada no Antigo Testamento é uma lei que os homens imaginaram (ou que acreditavam ter recebido de Deus por revelação), envolta em milagres. De fato, há diferenças não só entre a vida histórica de Jesus e a vida de Jesus no Novo Testamento relatada pelos apóstolos, mas também entre as vidas de Jesus que os próprios apóstolos descreveram. Assim como o cristianismo mudou, de fato, muitas vezes ao longo da história, venerando por exemplo a Virgem Maria sob a influência do culto da deusa egípcia Ísis ou da deusa grega Ártemis, sem relação com o ensinamento de Jesus345, também os Evangelhos, à medida que o cristianismo se espalhava por cada região do Mediterrâneo, parecem ter adotado muitas crenças e mitos locais:
Para que a nova doutrina não ferisse os ouvidos, os apóstolos a adaptaram tanto quanto puderam ao gosto das pessoas de seu tempo e construíram sua doutrina sobre os fundamentos mais conhecidos e mais aceitos naquela época 346
De fato, apesar do papel importante de Jesus em matéria de ética, o cristianismo, tal como a história o mostra, oscila entre duas missões: “adorar o SENHOR de todo o coração e de todas as forças” e “amar o próximo como a si mesmo”. O amor ao próximo é a única ética da humanidade, mas cada confissão e cada corporação mostrou que seguia seu próprio princípio de autopreservação mais do que o amor ao próximo. A doutrina pontifícia “Fora da Igreja não há salvação” mostra que o princípio da autopreservação prevalece sobre o amor ao próximo. O mesmo vale para as confissões dentro do cristianismo. O cristianismo histórico fundou confissão após confissão. Cada uma, para sua preservação, apresentava formas diferentes e pretendia ter razão. Voltaire o observou:
Toda seita, seja ela qual for, é produto do erro e da dúvida. Escotistas (Duns Scotus), tomistas (Thomas), realistas, nominalistas, papistas, calvinistas (Calvin), molinistas (Molina), jansenistas (Jansen) não passam de nomes de guerra. Não há seitas na geometria; ninguém se diz “euclidiano” ou “arquimediano”. Quando a verdade é evidente, não se podem formar partidos nem facções. Ninguém nega que ao meio-dia é dia claro 347
Essa contradição entre a fé e a ética não ocorre na civilização oriental do Dao. Pois não há lugar para um ser absoluto criador da natureza, e a própria natureza, enquanto Dao, se torna o apoio da ética mais importante para o ser humano. Por isso, na civilização do Dao, o ren (仁), isto é, o amor ao próximo, foi aceito tal qual, filosoficamente, como a ética suprema. Decomposto, o caractere 仁 significa “duas pessoas”. Em outras palavras, ele não reconhece nenhuma autoridade nem nenhuma doutrina que possa se intrometer na relação entre um ser humano e outro. A marca da civilização oriental do Dao é negar toda entidade ou todo valor que se intrometa na ética do ren. A Bíblia tem a mesma filosofia: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” O mesmo vale para sua afirmação clara do “amor do samaritano” (Samaritan Love): amar todos os seres humanos, qualquer que seja sua tribo.
Mas, no teocentrismo, o mandamento segundo o qual a ordem de Deus deve vir antes da ética das relações familiares se enraizou muito mais profundamente que no Oriente. A importância da lei é sublinhada sem cessar no judaísmo e se repete no cristianismo. Um conflito com o mandamento cristão do amor ao próximo, a lição do samaritano, aparece ali prefigurado:
Alguém lhe disse: Eis que tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo. Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mateus 12)
Na civilização de Deus, a lei da adoração de Deus era indispensável à autopreservação, e o amor ao próximo, única ética da humanidade, também o era. No entanto, a história mostra casos em que, na civilização ocidental, esses dois ensinamentos, a religião e a ética, se contradizem. Como evitar a contradição? Uma vez exprimida a verdade absoluta, é preciso, para protegê-la da contradição, afirmar a “infalibilidade” (infallibility) da expressão. É sobre esse fundamento que a religião ocidental afirma a infalibilidade da Bíblia e da Igreja. Mas, segundo a lógica do 道可道非常道, o Dao que se exprime não é o Dao eterno, a verdade absoluta não pode ser exprimida. A mesma filosofia se exprime no confucionismo. A fórmula “O dirigente não é um utensílio” (Analectos, 2:12) contém a ideia de que o ren não pode se exprimir em teoria metafísica. O essencial é que o ren não se forma pela simples imitação: é preciso apropriar-se dele por si mesmo. O ren não é um saber adquirido de fora pelo estudo, mas uma ética que deve crescer dentro de si e se realiza pela prática.
Como o Dao é eterno, imutável e não pertence a ninguém, ele dá à ética seu caráter absoluto, ao mesmo tempo que torna impossível a qualquer um pretender possuir ou ter descoberto uma ética absoluta. O confucionismo sublinha esse caráter da ética, o que o distingue muito do dogma religioso ocidental. Mêncio explicava: “Crer em tudo o que diz o Livro dos Documentos (書經) é pior do que não ter o Livro dos Documentos” (Mêncio, VII, “Jin xin, segunda parte”). Esse pensamento é explicado por Confúcio como uma virtude necessária à vida social: “O dirigente está em harmonia sem ser idêntico (和而不同); o participante é idêntico sem estar em harmonia (同而不和).” É a filosofia segundo a qual os dirigentes podem agir juntos sem partilhar as mesmas ideias, ao passo que os participantes se entendem na aparência sem partilhar de fato o mesmo pensamento. É uma filosofia social oposta à teoria ocidental do manifesto, que sublinha o absoluto.
A infalibilidade se torna dogma e acaba seguindo o caminho de sua negação na realidade. Como a única verdade absoluta e vital do mundo chega ao ser humano? Ela vem de Deus ao ser humano pelo profeta, que liga Deus e o ser humano. No monoteísmo, a lei se torna importante e tem como ponto de partida a obediência absoluta do ser humano a Deus. Aqui surge um problema na vida real. Se tivesse havido na história um só Deus único, representando o poder e a verdade absolutos, não haveria problema. Mas dois ou três mil anos de história humana apresentam outra realidade.
O que acontece se houver vários Deuses únicos? O judaísmo, o cristianismo e o islã aparecem como uma luta entre Deuses únicos. Até hoje, nenhum Deus único eliminou outro. E surgem problemas também dentro de um mesmo Deus único. Quando nascem interpretações diferentes dentro de uma religião, o que acontece com as relações entre elas? Cada uma só pode proclamar sua interpretação absoluta. Uma luta pela autopreservação entre elas se torna então inevitável. Por isso, quando nascem várias confissões num monoteísmo, a luta entre elas não é menos violenta que a luta contra as outras religiões. Irrompe uma luta desesperada pela sobrevivência, como uma guerra civil dentro de um país. A terrível luta entre protestantes e católicos na época da Reforma o prova. Os crentes honram como profeta aquele que recebeu a revelação e lhe obedecem absolutamente, pois a palavra do profeta se torna a palavra de Deus.
O papel de Jesus está numa ética que ultrapassa a lei do judaísmo, mas, historicamente, o cristianismo deixou o registro de um apego maior à lei. Os sistemas politeístas da Grécia e de Roma toleravam o culto de outros deuses. Mas, depois que o cristianismo se tornou a religião de Estado de Roma no século IV, as figuras e as estátuas de deuses que não o cristão foram destruídas por lei em grande escala no Ocidente. Historicamente, o cristianismo foi a mais exclusiva e a mais intolerante das religiões da Terra.348 E, depois do Renascimento, os metafísicos ocidentais herdaram tal qual a atitude intolerante dos teólogos cristãos da Idade Média. Ela encontrou em Marx sua expressão mais extrema. Marx via este mundo segundo a lógica em preto e branco do bem e do mal e tinha incondicionalmente por inimigo quem quer que não se pusesse a seu lado. Julgava a perseguição dos opositores necessária para construir a utopia proletária “provada” pela história: “Marx via este mundo em preto e branco e tinha incondicionalmente por inimigo quem quer que não se pusesse a seu lado. Sabia claramente de que lado estava e tinha certeza de que lutaria por eles e de sua vitória final.”349
Como declarou Espinosa, todas as coisas do universo, inclusive o ser humano, existem para se preservar. Qualquer outra explicação, inclusive o Dao e Deus, o papel da mente, o papel da ética e da lei, está apenas contida no princípio abrangente da autopreservação. Orientais e ocidentais, como os mesmos seres humanos, Homo sapiens, existem e agem apenas para se preservar. Segundo esse princípio da autopreservação, orientais e ocidentais criaram civilizações diferentes e apenas se esforçaram por se preservar. Filosoficamente, o princípio da autopreservação abrange ao mesmo tempo o próprio interesse e o do próximo. Ora, ficamos por muito tempo imersos num princípio de autopreservação que só vê o próprio interesse. Esse princípio, que só vê o próprio interesse, fez muitas vezes uso da noção de Deus na civilização de Deus. E, na busca desse objetivo, o que ele sublinha é o papel da “mente”. A civilização de Deus mostra muitas vezes essa situação. Quando se sublinha o papel da mente, ocorre a separação entre a mente e o instinto. Crer num Deus sobrenatural só é possível sobre a separação entre a mente e o instinto. A separação entre a mente e o instinto é o avesso da separação entre o ser humano e a natureza, e ela separa necessariamente você e eu.
Por isso “adorar o SENHOR de todo o coração e de todas as forças” significa, afinal, a separação entre o crente e o descrente, entre você e eu. De fato, a guerra entre os que adoram o SENHOR de todo o coração e de todas as forças e os que adoram Alá de todo o coração e de todas as forças não começou na Idade Média para continuar até hoje? “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, ao contrário, exige que não se separe você e eu. Dois mil anos de história cristã mostram também que a fé e a ética não se harmonizaram. No ser humano, a posição superior da mente sobre o instinto vem de Deus. Na doutrina cristã, a mente ocupa uma posição particular que só o ser humano recebe de Deus. Assim, uma filosofia que identifica a existência de Deus e a existência da mente humana passou a impregnar a civilização de Deus do Ocidente. E isso teve uma influência absoluta sobre a ética entre os seres humanos. Quando a capacidade da mente é universalizada e absolutizada, suas conclusões se convertem facilmente em fé, em verdade metafísica ou em ideologia. Essas conclusões se tornam então o objetivo mais importante para o ser humano, e a verdade absoluta. Diante dessa verdade absoluta, a ética e qualquer outra consideração devem ser sacrificadas.
Se se aceita a condição prévia de seguir a liberdade do cérebro novo dentro do destino, a condição humana que o cérebro antigo representa, e se constrói a ética sobre esse fundamento, não há conflito entre a fé e a ética. Nesse caso, o humanismo se confirma. O amor ao próximo se torna uma ética inviolável. Mas, se não se reconhece o destino, a ética desmorona e o humanismo degenera em antropocentrismo. O Oriente sustenta que há uma natureza e que, dentro de seus limites, a ética e a educação podem fazer de um ser humano um ser humano. O que importa aqui é a ética. A tábula rasa ocidental permite sair da ética; o objetivo do Oriente é formar seres humanos fundados na ética. Seguindo a religião, a metafísica e a ideologia, chega-se às vezes a ignorar ou a passar por cima da ética mais importante da humanidade, o “amor ao próximo”. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos não nasceram com sua religião: aprenderam-na tal qual de seus pais. O imperialismo, o comunismo e o fascismo também não são inatos: foram aprendidos dos pais e da escola. Nas guerras de religião e nas guerras ideológicas, a ética do “amor ao próximo” é ignorada, pois todas põem em primeiro lugar um paraíso ou uma utopia que pretendem superiores ao amor ao próximo. O conflito entre a ideia de progresso e a ética é inevitável.
A ideia de progresso nasce da absolutização da capacidade da mente. É a marca da civilização ocidental. A civilização ocidental, em vez de ver a capacidade da mente como uma das funções biológicas da humanidade, tende a tratá-la como uma capacidade particular, distinta de todas as capacidades corporais, e separa assim a mente e o instinto. A expressão exterior da separação entre a mente e o instinto é a separação entre o ser humano e a natureza; inversamente, a expressão interior da separação entre o ser humano e a natureza é a separação entre a mente e o instinto. Sendo produto de uma cultura da mente que separou a mente e o instinto, é natural que ela tenda a negar o instinto, ignorá-lo e tê-lo por culpado. O catolicismo, ao sustentar o pecado original, negou o instinto em favor da mente, e o protestantismo apenas mudou os termos: a divisão entre a mente e o instinto continuou. Nas relações entre os seres humanos, essa divisão, ao separar crentes e ateus, gerou uma tendência a separar você e eu. Como se vê em Calvino e em Lutero, amar a si mesmo foi tido por culpado ou proibido e, em Kant, isso encontrou uma expressão filosófica: amar a si mesmo foi visto como desprovido de qualquer valor.350 A palavra de Jesus “Ama o teu próximo como a ti mesmo” foi desvirtuada em “Ama o teu próximo e não ames a ti mesmo”, ou simplesmente “Ama só o teu próximo”.
Afinal, o conflito entre a busca de uma visão, inclusive a fé, e a ética é inevitável. Pois as organizações criadas pelos que pregam a adoração de Deus procuram sobreviver segundo o princípio da autopreservação. Quando o amor ao próximo e a adoração de Deus entram em contradição, surge afinal um conflito de interesses de autopreservação entre a ética universal da humanidade e a casta sacerdotal que guarda Deus. Para se preservar, a Igreja apresenta a doutrina “Fora da Igreja não há salvação”. Na época da conquista do mundo pelo Ocidente, que o Ocidente chama de era dos descobrimentos (Age of Discovery), o Ocidente proclamou em nome do papa decretos segundo os quais “os não cristãos do mundo inteiro devem ser reduzidos à escravidão”. Durante séculos, os ocidentais acolheram favoravelmente esses decretos. Estavam longe da ética do amor ao próximo de Jesus para com o samaritano. Seu objetivo era antes estabelecer e ampliar o poder da Igreja ou do Estado. 351
3) A ética é um mandamento de Deus ou um conselho da natureza?
O amor ao próximo é uma das doutrinas mais importantes do cristianismo. O que fez os ocidentais amarem seu próximo foi o mandamento de Deus. É o fundamento da ética ocidental. O amor ao próximo não está a serviço do próprio egoísmo. Por isso os ocidentais veem o altruísmo como vindo do sacrifício de si. A filosofia ocidental pensa que a ética vem do sacrifício de si. No sistema filosófico ocidental, os fundamentos para conciliar o altruísmo (o amor ao próximo) e o egoísmo na teoria da natureza humana são frágeis.
Na civilização ocidental, como a ética é um mandamento de Deus, se Deus não intervém nos assuntos humanos, o ser humano pode se libertar da ética que Deus ordenou. Se não há Deus, não é mais preciso sacrificar o próprio interesse. Em outras palavras, surge a pergunta: “Se não há Deus, por que eu deveria amar o meu próximo?” Então os que abandonaram a religião passam a se perguntar por que deveriam manter a ética.
É difícil compreender como, em países como a China, diferentemente da Europa, o ceticismo religioso não acarretou o ceticismo ético. 352
Mesmo depois do deísmo, os pensadores ocidentais esbarraram em problemas difíceis relativos à fé e à ética. Comte, rejeitando a teologia e a metafísica, exclamava que “o único absoluto é que tudo é relativo”, mostrando uma atitude no fundo idêntica ao “Se Deus está morto, tudo é permitido” de Dostoiévski; e Nietzsche também se declarou ateu.
“Deus”, “a imortalidade da alma”, “a redenção”, “o além”: são noções às quais nunca prestei atenção. Nunca perdi tempo com elas, nem mesmo quando criança. Talvez eu nunca tenha sido ingênuo o bastante para acreditar nelas? ··· O ateísmo não é para mim o resultado de coisa alguma, menos ainda um acontecimento importante da minha vida. Para mim, ele é evidente, é instintivo.353
Russell declara: “Não sou cristão”, e Lin Yutang, que deu a conhecer ao Ocidente uma faceta da civilização chinesa, também declarou: “Sou ateu”, antes de voltar ao cristianismo em 1959.354 Essas atitudes mostram que eles não compreenderam nem a essência do cristianismo, que Espinosa expôs tão claramente, nem a essência da ideia do ren (仁), que Confúcio se esforçou tanto para nos deixar. Comte, Dostoiévski, Nietzsche, Russell, Lin Yutang e outros podem ser, do ponto de vista do pensamento oriental, não ateus, mas pensadores do não manifesto. O juízo negativo do Ocidente sobre os ateus é a atitude de pensadores que não conseguiram conceber a diferença entre o manifesto e o não manifesto; procede da vontade de analisar os assuntos do mundo e a história da filosofia apenas do ponto de vista ocidental do manifesto e se torna um imenso problema filosófico próprio apenas do Ocidente, sobretudo no plano da ética.
Mesmo um filósofo como Russell parece não ter compreendido a diferença essencial entre as civilizações do Oriente e do Ocidente. Sem compreender a teoria da natureza humana oriunda da filosofia natural oriental, não se pode compreender que a ética é a expressão de um egoísmo a serviço de si. Esse problema difícil passa a ser resolvido pelos naturalistas ocidentais. Eles não reconhecem um vínculo absoluto entre a religião revelada e a ética. Começaram a compreender que a ética não é um mandamento de Deus, mas um conselho da natureza. Dawkins também exprime suas dúvidas sobre o papel que a religião revelada ocidental atribui à religião em matéria de ética:
As pessoas religiosas muitas vezes se perguntam como alguém pode ser bom sem religião, e por que deveria sê-lo. 355
O deísmo coloca aos ocidentais o grave problema de saber onde encontrar a fonte da ética. Quando a metafísica, longe de ressuscitar o Deus cristão, já abalado pela teologia medieval, precipitou sua queda decisiva, os ocidentais começaram a negar todo absoluto. O desaparecimento da ética é a tarefa que a maioria dos ocidentais, que viveram numa civilização do manifesto, tem diante de si. Os ocidentais, que conheceram o deísmo (理神論) do século XVIII, o evolucionismo de Darwin no XIX e a tirania das ideologias no XX, perderam o rumo em matéria de ética. O deísmo, sob a proposição de que Deus existe, mas pode ser compreendido não pela revelação, e sim pelo pensamento da mente, e de que a mente pode descobrir a moral e a verdade, apresenta como fonte da ética o imperativo categórico de Kant (1724–1804), mas carece de força persuasiva, pois sua parte metafísica, fundada no racionalismo, é grande.
Rousseau (1712–1778) propôs uma natureza humana diferente da da religião revelada. Sustentava que o ser humano nasce bom, mas que a civilização humana torna mau o bom caráter humano. Por isso explicava que o que importa ao ser humano é a sensibilidade (sensibility), expressão da natureza humana original. E apresentou a hipótese de que tudo vai bem se o ser humano age segundo sua sensibilidade, obtendo grande acolhida favorável em todo o Ocidente. Dizer às pessoas que confiem em sua sensibilidade equivale a afirmar que mesmo agir com desprezo pela ética não traz problema, já que é a ação de seres humanos bons por origem. Afinal, explicava que o elemento mais importante no ser humano é ter “sensibilidade e um coração caloroso”.
Essa situação insuflou nos europeus a tendência que chamamos de “romantismo”. Saboreando sua nova liberdade, passaram a ignorar a ética própria da civilização, considerando que o que torna o ser humano mau se deve à civilização. Em Do contrato social, Rousseau afirma: “O homem nasceu livre, e por toda parte se encontra acorrentado.” Por isso, nesse momento em que se pregava o romantismo, surge no Ocidente uma espécie singular de pessoas: os que puseram realmente em prática a sensibilidade de Rousseau. Rousseau, Sade (1740–1814), Byron (1788–1824), Shelley (1792–1822) e outros estão entre eles.
Eles pregavam uma vida que só seguisse a própria sensibilidade, já que tudo o que é mau é culpa da civilização que os homens fizeram. Achavam todos natural pedir dinheiro emprestado aos amigos sem devolvê-lo; todos tiveram relações amorosas desregradas e fizeram da traição um hábito; agiam como seus instintos lhes ditavam, desprezavam o cumprimento das promessas, como a fidelidade, e se revoltavam contra esse sentimento que é a ética, que a sociedade procurava preservar. Entre a mente e a paixão, Rousseau se afastou da mente e se pôs decididamente do lado da paixão. E Rousseau valorizava a religião não pelo lado da mente, mas da sensibilidade, sustentando a religião pelo sentimento, pelo coração, pelo temor reverente, pelo misticismo etc. O próprio Rousseau, ao entregar todos os filhos a um asilo de enjeitados, adotou a posição de que podia viver como bem entendesse, segundo sua sensibilidade.
Depois de Rousseau, com a era da mente entrando na era das ideologias (Age of Ideology), o deísmo foi substituído pela ideologia. A ética se tornou serva da ideologia. A ideologia acreditava que os seres humanos podiam cooperar para construir neste mundo um mundo ideal, uma utopia. Tratava-se de sacrificar a ética “por enquanto” para alcançar o objetivo da utopia que devia chegar em breve. Isso se torna uma lógica que ignora a orientação fundamental da ética e justifica a ditadura e a guerra impiedosas. O comunismo e o fascismo são exemplos disso. O comunismo tem um código ditatorial de dez mandamentos, apresentado por Karl Marx: dez medidas de um regime ditatorial, calcadas nos Dez Mandamentos da Bíblia. Esse código inclui a atribuição ao Estado de todos os meios de produção, o confisco de todos os bens dos emigrados e dos rebeldes, a centralização de todos os meios de transporte nas mãos do Estado etc. Os Dez Mandamentos, que se tornaram na Bíblia a norma da ética e que haviam feito os ocidentais observarem rigorosamente a ética, foram substituídos por dez mandamentos da ditadura. Hitler também agiu como bem entendeu: a partilha da Polônia com a União Soviética, a invasão da Polônia que se seguiu, o ataque à União Soviética. Hitler se gabava desses atos como do meio mais eficaz de alcançar sua utopia. Apresentava o extermínio dos judeus como uma medida indispensável para alcançar essa mesma utopia. O problema é que esses atos, sendo em si mesmos profundamente contrários à ética, violam o “amor ao próximo” que os profetas da humanidade propuseram. E, na realidade, se a utopia não se realiza, o “por enquanto” à espera de que ela se realize “se torna eterno”, e a ação destruidora da ética aparece como o maior problema da ideologia.
Antes do deísmo, a ética mais importante entre os seres humanos era danificada pelo conflito entre a adoração de Deus e a ética; depois do deísmo, com o mundo se tornando um mundo sem Deus, isso provocou uma situação sem ética. Não só os Dez Mandamentos e o amor ao próximo, que Deus havia estabelecido como lei, foram abertamente violados, como a era das ideologias criou um mundo espantoso em que uma nova ética que os substituía, a “antiética” destinada a realizar a utopia, se fazia passar por “ética”. A ditadura e a limpeza étnica se tornaram sua “ética”. Criaram um mundo em que três ideologias, o colonialismo, o comunismo e o fascismo, se emaranhavam numa luta de morte. Para isso, os ocidentais não recuaram diante de duas guerras mundiais no século XX. E depois arrastaram o mundo para a Guerra Fria.
Desde o surgimento do deísmo, muitos pensadores ocidentais vagueiam em busca da origem da ética. De onde deve vir a ética? Como analisamos, Kant procurou substituir a ética por uma “deontologia moral transcendental” fundada na mente. Dostoiévski (1821–1881), exclamando que “se Deus não existe, tudo é possível”, esforçou-se por fazer reviver Deus. Nietzsche visava um super-homem moral, não um super-herói (super hero) no sentido das funções humanas, mas um homem moldado por sua própria vontade interior, moralmente livre da doutrina cristã.
A filosofia oriental, como se vê no taoísmo e no confucionismo, visava desde a origem um engajamento no real fundado na ética. A primeira condição para tornar a si mesmo reto é compreender a harmonia entre o egoísmo e o altruísmo. Sem ela, não se pode governar nem a família, nem o país, nem o mundo: “Tornar a si mesmo reto, pôr ordem na família, governar o país, levar a paz ao mundo” (O Grande Aprendizado, capítulo 8). No Oriente, essa filosofia já estava realizada há dois mil anos. Não é o altruísmo, fundamentalmente, mas o egoísmo poderoso que insufla sua força originária na sociedade humana. Mas a sociedade só se mantém se refletir o altruísmo fraco presente na natureza humana. Afinal, toda a nossa filosofia está ligada à teoria da natureza humana.
Se o altruísmo é o elo que faz uma sociedade sã, a sociedade humana se torna algo muito distante da natureza. Mas há uma saída para esse dilema. O que, à primeira vista, parece altruísmo pode ser “egoísta” do ponto de vista do darwinismo? Em outras palavras, o sacrifício de um indivíduo pode, afinal, servir à continuidade de seus próprios genes? A essas proposições opostas, a resposta é sim. 356
Antes do deísmo, não havia nenhuma necessidade de estudar o ser humano. Como o ser humano havia sido feito à imagem de Deus, estudar Deus era estudar o ser humano. O ser humano era uma criatura nascida carregada do pecado original, que vivia no mundo uma vida de penas e depois enfrentava o Juízo Final. Mas, ao passarem a crer no deísmo, segundo o qual Deus não intervém nos assuntos humanos, os ocidentais passaram pela primeira vez a se perguntar o que é o ser humano, no plano da filosofia natural.
No Ocidente, os teístas eram a maioria esmagadora, mas, há pouco tempo, os teístas que vão à igreja se tornaram uma minoria. Isso não quer dizer que os ocidentais se tenham tornado ateus. Bom número de ateus, sem o admitir eles mesmos, pertence ao não manifesto: são pessoas que, como Espinosa, se declaram afinal teístas, crentes em Deus, mas são tratadas como ateias pela lei da Igreja. David Mills, autor de Atheist Universe; Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio; Christopher Hitchens, autor de Deus não é grande: são ateus no Ocidente, mas podem ser, no Oriente, pensadores do não manifesto. Creem na verdade absoluta, mas não creem numa fé revelada por profetas tal como a religião revelada a apresenta. No Ocidente, são condenados pelos partidários do manifesto, mas, no Oriente, tornam-se livres pensadores do não manifesto que creem na verdade absoluta.
Como manter a ética num mundo sem Deus: essa é uma questão que continua sendo, no Ocidente, a tarefa de muitos. Mas a resposta deve ser buscada não na teoria do manifesto, que reivindica a verdade absoluta, mas na do não manifesto. O capítulo 8 do Daodejing explica como o ser humano deve viver: “Na amizade, frequente os benevolentes. Na palavra, fale com boa-fé. No governo, governe com retidão. No trabalho, faça o melhor possível. Na ação, escolha o momento certo.” É a ética do Dao, que qualquer um pode encontrar na natureza, e não o mandamento de Deus.
A civilização oriental se apoia numa filosofia natural segundo a qual, mesmo sem o Deus da religião revelada, a ética “pelo próprio interesse e pelo dos outros” pode nascer por si mesma e se manter. A fonte da ética é o “interesse bem compreendido”, pelos outros e por si. O importante é que a fonte da ética não é o mandamento de Deus, mas o princípio da autopreservação inerente à natureza humana, que protege a si mesma.
Segundo a natureza humana, é o instinto, e não a mente, que deve ser a fonte da ética; mas, no estágio em que a ética se forma, a mente tem um papel importante. Nesse estágio, a mente pode influir sobre o instinto. No estágio em que a mente influi sobre o instinto, é preciso haver um fundamento no instinto: é o altruísmo que existe no interior do instinto. Examinando a natureza humana, o instinto contém, além de um egoísmo poderoso, um altruísmo fraco, mas real. Olhando de perto, essa “harmonia entre um egoísmo poderoso e um altruísmo fraco” é o que faz a sociedade humana girar dinamicamente. Se o ser humano nascesse com uma natureza feita de um altruísmo poderoso e de um egoísmo fraco, a sociedade humana se pareceria com o paraíso, mas seria perfeitamente insípida, e não haveria nenhuma razão para o ser humano viver. Afinal, a sociedade humana se torna, em matéria de ética, um processo de luta e de acordo conduzido no plano do indivíduo, da sociedade e da condução do Estado: o esforço difícil e penoso, mas dinâmico, de equilibrar pela mente o altruísmo e o egoísmo. É assim que se formam o dirigente confuciano ou o homem de sabedoria de Espinosa.
Analisando assim, chegamos a uma conclusão: o elemento mais importante da ética humana não está na “mente” à maneira de Descartes ou de Kant, mas na “natureza humana que abrange juntos o instinto e a mente”. Chegamos à filosofia de Espinosa, que sustenta um racionalismo do instinto e da mente reunidos.357 Se a fonte da ação humana se apoia não na mente, mas no instinto, o mecanismo do instinto acompanha o ser humano como um destino do nascimento à morte. Ao mesmo tempo, como a mente humana desempenha o papel de gerir o instinto, ela continua a geri-lo até o instante da morte, não como fonte de luz, mas como espelho.
Adote-se essa filosofia, que reconhece a natureza humana como fonte de luz enquanto a mente humana desempenha o papel de espelho, e a direção que a ética entre os seres humanos deve tomar fica fixada. É a noção de “liberdade (a mente) dentro do destino (o instinto)”. Em outras palavras, reconhecendo o instinto, a educação do caráter decide tudo o que o ser humano pode fazer depois do nascimento. A educação do caráter cabe inteiramente à responsabilidade do indivíduo. Essa responsabilidade dura até a morte: a filosofia oriental “A vida tem fim, mas o saber não tem” se aplica aqui. Mergulhar numa doutrina, numa descoberta metafísica ou numa ideologia não pode substituir a educação do caráter. “O dirigente não é um utensílio” (君子不器). (Analectos, 2:12).
A moral (道德, Moralism) não concorda com as leis da natureza
A filosofia segundo a qual a moral não concorda com as leis da natureza fornece um critério importante em sua relação com a teoria da natureza humana. Tal filosofia é difícil de encontrar na civilização ocidental, que a teoria do manifesto domina. Pois esta considera que os assuntos humanos seguem o curso do bem e do mal, de modo que a moral é nela o que julga o ser humano. Pode-se encontrar tal filosofia remontando à época grega anterior a Sócrates. Nos pensadores gregos do não manifesto, vê-se a possibilidade de sustentar que a teoria da natureza humana nada tem a ver com a moral. Por exemplo, Carnéades (214–129 a.C.), um dos pensadores gregos do não manifesto, opondo-se à filosofia do ser e ao determinismo, deixou a ideia de que é preciso prestar atenção ao acaso e ao provável. Dizendo que “a moral não concorda com as leis da natureza”, exprimia a ideia de que o que chamamos de justiça não pode ser eterno, é irracional e só é reivindicado pela necessidade de um momento. Enviado a Roma como embaixador, pronunciou discursos célebres: num dia, um discurso em louvor da justiça; no dia seguinte, um discurso que a criticava, o que chocou profundamente seus ouvintes. A filosofia de Carnéades segue uma teoria naturalista que quer ver a moral e a natureza humana tais como são, e não um racionalismo fundado na mente. Sustentava que é preciso duvidar do caráter absoluto das noções morais, como a justiça, a liberdade e os direitos humanos, e conhecer sua relatividade pela argumentação.
Mas o Ocidente, seguindo a filosofia da época greco-romana e a filosofia cristã medieval, deu à moral um caráter absoluto como mandamento de Deus. E, ao entrar no Iluminismo, continuou a cultivar essa filosofia do manifesto. Adaptando-se à situação em que a mente substituía Deus, a filosofia de Kant, segundo a qual a moral é uma “deontologia moral transcendental” ordenada pela mente, ganhou numerosos partidários. A filosofia de Kant se une à tese da bondade da natureza humana sustentada por Rousseau. A filosofia ocidental do início da Idade Moderna estava assim fascinada pela tese da bondade da natureza humana e pelo idealismo moral.
Diante dessas afirmações sobre a natureza humana surgiu a filosofia empirista, que opôs pela primeira vez no Ocidente uma contrateoria aos racionalistas que pendiam para o lado da mente. Entre seus filósofos representativos está Hume (1711–1776). Ele desenvolveu uma teoria naturalista da natureza humana e, como ela se opunha frontalmente à natureza humana religiosa, foi acusado de heresia e exposto a perigos, entre eles processos perante tribunais eclesiásticos.
A moral excita as paixões e produz ou impede as ações. A razão, por si mesma, é inteiramente impotente nesse domínio. As regras da moral, portanto, não são conclusões da nossa razão. 358
Os pensadores de seu tempo tratavam Hume como ateu ou cético. Os pensadores ocidentais ainda o classificam entre os céticos. Mas, ampliando o olhar, seu pensamento pode ser situado não num ceticismo negativo, mas junto aos céticos gregos, ou aos pensadores orientais do não manifesto. Na época de Hume, a filosofia ocidental estava nas mãos de racionalistas convictos como Descartes e Kant. Eles pensavam que a mente governa tudo. Hume saiu dessa corrente e abriu um novo horizonte. Coisa espantosa, sublinhou a importância não da mente, mas do instinto:
A razão é, e deve ser, apenas escrava das paixões, e nunca pode pretender outra função senão servi-las e obedecer-lhes. 359
Para a sua época, era uma teoria espantosa. Ainda hoje pode parecer a muitos uma teoria desconcertante. A ética de Hume ainda é chamada de “antirracionalismo ético” (Ethical Anti-rationalism). Mas a teoria de Hume tem seus partidários. Pode-se encontrar a tese de Hume já na época grega. Como vimos, ela se assemelha à de Carnéades: “O moralismo (moralism) não concorda com as leis da natureza.” O que chamamos de justiça não pode ser eterno. A moral é irracional e só é reivindicada conforme a necessidade do momento. Por exemplo, a escravidão foi aceita durante milênios, até o século XVIII, como uma ética racional da sociedade humana. Mas, no século XXI, a escravidão se tornou a ética mais odiosa da sociedade humana. A ética depende muitas vezes do modo como vemos a natureza humana. A relação entre o instinto e a mente importa acima de tudo. Sobre os papéis do instinto e da mente, Russell empregou estes termos: o instinto é a ação; a mente, a regulação:
O desejo, a emoção, a paixão (escolha o leitor a palavra que quiser) são as únicas causas possíveis da ação. A razão não é causa da ação, mas apenas um regulador 360
A apreciação da natureza humana está estreitamente ligada ao modo como as civilizações do Oriente e do Ocidente julgam filosoficamente o provérbio “O Céu ajuda quem se ajuda”. Na civilização do Dao, isso não traz nenhum problema, “pois é o ser humano que engrandece o Dao”. Quem se ajuda a si mesmo recebe a bênção do Dao. Mas, na civilização de Deus, há debate, por causa da ideia de que o ser humano só pode ajudar a si mesmo com a graça (grace) de Deus. Eles pensam que “Deus ajuda os que não podem ajudar a si mesmos”, por causa da fé segundo a qual Deus fez o ser humano e governa todos os assuntos humanos. O provérbio “O Céu ajuda quem se ajuda” foi no Oriente, durante dois mil anos, um provérbio importante para o cultivo do caráter. Mas, no Ocidente, depois de ter aparecido nas fábulas de Esopo, antes da nossa era, ele desapareceu na Idade Média, até que o deísta (理神論者) Benjamin Franklin o pusesse de novo em voga no Ocidente no século XVIII.
As filosofias da natureza humana de Locke e de Adam Smith dependem em grande parte da religião. O esforço humano importa, mas a filosofia segundo a qual é preciso, afinal, confiar no poder de Deus é forte. E, faça o ser humano o que fizer, como ele é um ser humano feito por Deus, passa-se a contar com o otimismo segundo o qual tudo acabará bem. Pois, em sua fé, acreditam que “Deus é benevolente”. Mas a civilização do Dao se apoia na filosofia de uma teologia negativa: “O Dao não é benevolente.” Ela acredita então que os assuntos humanos não são resolvidos pelo Dao, mas devem, afinal, ser assumidos pelo ser humano, dentro dos limites do Dao. Não é o otimismo, mas o realismo. Segundo o pensamento oriental, o Céu também não ajuda o ser humano que não se ajuda a si mesmo. As filosofias de Deus e do Dao estão fundamentalmente ligadas à teoria da natureza humana, que define “quem somos”.
4) O que é o altruísmo? O Ocidente, o sacrifício do interesse próprio, vs. o Oriente, o interesse bem compreendido
O altruísmo é indispensável para manter a ordem social e para a paz interior do indivíduo. O confucionismo e o cristianismo fazem ambos do altruísmo o cerne dos assuntos humanos. O que é o altruísmo? Na análise do altruísmo, o Oriente e o Ocidente mostram uma diferença fundamental no que toca à natureza humana. Na civilização oriental, o altruísmo é uma espécie de interesse próprio: um interesse próprio de caráter esclarecido, que serve a si mesmo servindo aos outros. O interesse bem compreendido, isto é, o altruísmo, é inerente à natureza humana. Segundo a teoria da natureza humana da civilização ocidental, o altruísmo não está na natureza humana. O altruísmo é um mandamento de Deus. O egoísmo é toda a natureza humana. O altruísmo se torna uma ética particular que compensa a natureza humana, nascida do mandamento de Deus ou do da mente. O altruísmo é inerente à natureza humana ou é um mandamento de Deus (ou uma ética fundada na mente) alheio à natureza humana? Essa é a diferença entre o Oriente e o Ocidente a respeito do altruísmo.
No Ocidente, o altruísmo é visto como um estado que abandonou o interesse próprio e o substituiu. Só se pode escolher um dos dois, o interesse próprio ou o altruísmo. Na civilização ocidental, o altruísmo é sacrifício de si. Na relação entre o interesse próprio e o altruísmo aparece de novo a diferença entre as filosofias oriental da “complementaridade” e ocidental da “oposição”. Procure-se altruísmo (altruism) nos dicionários ou nos textos ocidentais: é uniformemente empregado no sentido do que vai contra o próprio interesse, do que só serve aos outros, do que não é para si. O altruísmo traz a ideia de “não ser para si” (selflessness or unselfishness). A Bíblia também mostra a oposição entre o altruísmo e o interesse próprio.
Ninguém busque o seu próprio interesse, mas cada um o do outro. (1 Coríntios 10:24)
Essa filosofia, depois da lei da religião revelada, foi herdada tal qual pelo racionalismo do Iluminismo, segundo o qual a mente humana podia tomar o lugar de Deus. O filósofo iluminista Kant definia o “verdadeiro amor moral” como “a prática a serviço dos outros”. Ele sublinhava que é preciso tratar o ser humano “como um fim, e não como um meio”, o que vai no mesmo sentido. Como ponto de partida da ética, Kant sustentou uma deontologia moral (deontology) fundada no imperativo categórico (categorical imperative), que se apoia na mente. Pensava que o ser humano nasce com a lei moral em sua mente. No sistema filosófico do deísmo do Iluminismo, segundo o qual Deus não intervém nos assuntos humanos, essa filosofia de Kant foi saudada pelos racionalistas ocidentais como uma “revolução copernicana” (Copernican Revolution). Mas, afinal, é uma forma em que “a mente humana” substituiu “a lei de Deus”.
O Oriente analisa o altruísmo como “interesse bem compreendido” (Enlightened self-interest). O altruísmo é um elemento necessário para buscar um interesse próprio duradouro, de longo prazo. O bem comum (共同善) se torna o interesse bem compreendido. Na filosofia oriental, dificilmente se encontra a exigência oposicional, à maneira ocidental, de renunciar ao próprio interesse para buscar o dos outros em nome do bem comum. No Oriente, o bem comum consiste em buscar juntos o próprio interesse e o dos outros. É a diferença entre a importância do “eu” que o individualismo reivindica e a importância do “nós” que o relacionalismo reivindica. Como a civilização oriental tem por cerne a importância do “nós”, fundada no relacionalismo, é possível um bem comum que afirme ao mesmo tempo o meu interesse e o dos outros. Confúcio explica nos Analectos o essencial do bem comum, isto é, do interesse bem compreendido:
Se você quer estabelecer o próprio interesse, estabeleça também o dos outros. Se deseja algo, faça acontecer também o que os outros desejam. (Analectos, 6:30)
O importante aqui não é “sacrificar a si mesmo”, mas buscar “também o interesse dos outros, pelo próprio interesse”. É uma filosofia relacional, segundo a qual levar em conta o interesse dos outros se revela afinal o melhor também para o próprio interesse. A proposição ocidental “Ninguém busque o seu próprio interesse, mas cada um o do outro” vem da divisão oposicional, no Ocidente, entre o eu e o outro. Vista da civilização oriental, fundada na complementaridade, é preciso “buscar juntos o próprio interesse e o dos outros” para ser realista. Na ética ocidental, a proposição oposicional supõe uma natureza humana contrária ao “instinto de autopreservação”. A tese oposicional segundo a qual é preciso abandonar a si mesmo para servir aos outros carece de realismo. A ética deve, afinal, ser para si. Xunzi explica que a ética e a lei existem para “nós”. Em outras palavras, a ética é um interesse bem compreendido necessário à autopreservação:
Suponhamos, por exemplo, que suprimíssemos toda ética e toda lei, que retirássemos tudo o que o governo faz e toda possibilidade de castigo, e vejamos como os seres humanos se comportariam. Os fortes atormentariam e oprimiriam os fracos. O grande número prejudicaria o pequeno número e procuraria aniquilá-lo. A ética e a ordem desapareceriam. A sociedade tomaria o caminho da ruína. (Xunzi, 23:7)
A ética pertence, afinal, à natureza humana que é a autopreservação. No Oriente, a ética não é nem um mandamento moral nem um sacrifício de si. É um interesse bem compreendido que pertence à autopreservação. O Ocidente parece começar hoje a pensar assim.
A realidade biológica da autopreservação produz a ética humana. Pela necessidade inalienável de protegermos a nós mesmos, devemos ajudar os outros a serem protegidos também. Se fracassarmos nisso, pereceremos nós mesmos, pois traímos e abandonamos a norma contida no princípio fundamental da autopreservação. 361
Diferentemente de qualquer outro animal, o ser humano nasce com a cobiça. O que pode curar a cobiça é a ética. Como vimos, os grandes precursores da humanidade propuseram todos o amor ao próximo como norma da ética. Na civilização oriental, a ética não é um mandamento de Deus: ela vem naturalmente pelo próprio despertar.
Se o Dao é honrado e a virtude (德) estimada, não é por efeito de nenhuma ordem, mas naturalmente, por si mesmos. (Daodejing, capítulo 51)
Na civilização oriental, a ética vem não de Deus, mas da natureza. É a ética do Dao, que quer ver a natureza tal como ela é e aprender com ela. A noção de harmonia entre o interesse próprio e o altruísmo, inerente à civilização oriental, é uma filosofia que o Ocidente não tem. Os ocidentais confiavam a Deus sua ética. Os orientais a confiam à natureza: seguem o Dao que a natureza propõe ao ser humano. O Dao propõe o meio de harmonizar o interesse próprio e o altruísmo.
A tarefa central da teoria oriental da natureza humana é saber como tratar o egoísmo poderoso e o altruísmo fraco presentes na natureza humana. O confucionismo e o taoísmo tratam o altruísmo como um interesse bem compreendido a serviço de si. Em outras palavras, o altruísmo não é o sacrifício do interesse próprio, mas, afinal, uma parte dele. Confúcio propõe a harmonia entre o interesse próprio e o altruísmo como uma virtude importante na educação do caráter: “Querendo se firmar, ajuda os outros a se firmarem” (Analectos, 6:30). Assim como a natureza preserva a biodiversidade, o ser humano só mantém o equilíbrio aprendendo, para se preservar, a reduzir o egoísmo e a praticar o altruísmo. O Daodejing também fala da ordem da natureza que mantém o equilíbrio: “A natureza diminui o que é demais e aumenta o que é de menos” (Daodejing, 77).
A seleção de parentesco e o altruísmo recíproco
Filósofos científicos ocidentais vêm fornecendo recentemente uma teoria, fundada no naturalismo, que sustenta o “interesse bem compreendido” defendido pela civilização oriental. Com a descoberta que os cientistas ocidentais chamam de “seleção de parentesco” (Kin selection), feita na segunda metade do século XX, o interesse bem compreendido adquire uma fonte científica sólida. A seleção de parentesco prova, no plano da natureza humana, que a fonte da ética está não na mente, mas no sentimento. Nisso ela contrasta com a filosofia de Kant, em voga no Ocidente. A seleção de parentesco segue o sistema filosófico de David Hume mais do que o de Kant. Hume sustenta que a ética humana é limitada pela natureza humana com que o ser humano nasce; Kant, inversamente, sustenta que a ética é produto de uma mente livre, não limitada por essa natureza que é o sentimento. Kant via a ética como vinda inteiramente da mente. Hume via a ética como fundada não na mente, mas no instinto.
Encontra-se enfim, no espírito de alguns pensadores ocidentais, o germe do interesse bem compreendido. O juízo moral não vem da mente: eles passaram a sustentar que sua fonte é o sentimento. O biólogo britânico Hamilton propôs em 1964 a ideia da seleção de parentesco. Ela vinha da descoberta de que o altruísmo pertence a uma seleção genética a serviço de si. Com essa descoberta sobre a natureza humana surge pela primeira vez no Ocidente a filosofia segundo a qual a seleção de parentesco segue o interesse próprio. O professor Dawkins explica o altruísmo como pertencente inteiramente ao egoísmo.
Embora à primeira vista a seleção de parentesco pareça vir do altruísmo, no plano dos genes biológicos ela é a expressão de um egoísmo radical. 362
Geneticamente, o ser humano tem uma natureza muito egoísta, que só mostra altruísmo por exceção. É a afirmação de que a natureza humana nasce com um egoísmo poderoso e um altruísmo fraco.
Os genes que têm êxito genético agem de modo muito egoísta. Por isso o ser humano também age de modo egoísta. Mas, em casos excepcionais, nossos fins egoístas podem ser alcançados dando mostras de um altruísmo limitado. As palavras “excepcional” e “limitado” são o que conta. Por mais que o desejemos, é preciso admitir que coisas como o amor universal ou o bem-estar geral não existem na evolução que nossos genes governam. 363
No entanto, a razão pela qual devemos cultivar o altruísmo e a consideração pelos outros como ética é que o egoísmo com que nascemos é muito poderoso. A coexistência de um egoísmo poderoso e de um altruísmo fraco é a realidade da natureza humana à qual não podemos escapar.
Devemos ensinar com empenho a consideração pelos outros e o altruísmo, porque nascemos egoístas. Então genes governados por nosso egoísmo podem exercer uma função de frear o egoísmo que não tem nenhuma chance de existir nos outros seres vivos. 364
O altruísmo nasce do mesmo modo no ser humano e no animal. A seleção de parentesco é a lógica segundo a qual, sacrificando-se para ajudar os parentes, se faz, a longo prazo, geneticamente, mesmo que se morra, multiplicarem-se os genes que nos constituem. O altruísmo recíproco é o altruísmo trocado entre indivíduos não aparentados: ajuda-se outro esperando ajuda em troca. No mundo animal, tal altruísmo não é celebrado como uma conduta eticamente boa. O altruísmo é uma espécie de interesse próprio. Mas o altruísmo recíproco só é celebrado na sociedade humana. Levando isso em conta, o termo “altruísmo recíproco” (Reciprocal altruism) surgiu na civilização ocidental, que só tratara o altruísmo como sacrifício de si, para resolver a questão. O professor Gould o explica assim:
Segundo o evolucionismo darwiniano, paradoxalmente, o altruísmo e o egoísmo podem ambos ser selecionados pela evolução. O altruísmo pode criar uma vantagem individual, pois estabelece relações de obrigação mútua com os outros, ou ajuda os parentes, o que permite copiar os genes do altruísmo. 365
Afinal, portanto, o altruísmo recíproco também pertence ao fim último da autopreservação. Sob essa proposição, um egoísmo poderoso e um altruísmo fraco coexistem no ser humano, e vivemos no interior dessas propriedades. O professor Gould vê nessa coexistência uma espécie de jogo do dilema do prisioneiro:
Afinal, entre o egoísmo e o altruísmo, os animais, as plantas e os seres humanos jogam o jogo do “dilema do prisioneiro”. Seu objetivo é a autopreservação. 366
Se se estende esse jogo à sociedade inteira, vê-se que existem na Terra civilizações de sociedades prósperas e civilizações de sociedades que não o são. As sociedades que têm êxito têm uma civilização que difunde pelo estudo o altruísmo recíproco inscrito nos genes. Como o altruísmo é muito fraco em comparação com o egoísmo poderoso, ele só funciona na sociedade, em equilíbrio com o egoísmo, se for reforçado pelo estudo.
O altruísmo recíproco existe numa sociedade que funciona bem. Essa lógica pode pertencer aos genes ou ser adquirida pelo estudo. 367
Vimos o quanto as civilizações do Oriente e do Ocidente têm filosofias diferentes do altruísmo. O confucionismo e o taoísmo fazem da prática do altruísmo recíproco, isto é, da educação do caráter, o objetivo supremo do estudo. O Oriente avaliou o altruísmo como interesse bem compreendido e construiu sobre ele um consenso de civilização. A época em que esse sistema filosófico tomou lugar no cerne da civilização foram os séculos V e IV a.C.: o momento em que a teoria da natureza humana se estabeleceu no Oriente.
O Ocidente via o interesse próprio e o altruísmo em luta e considerava que só se podia insuflar o altruísmo no ser humano tomando emprestado o poder da religião. Continuando essa religião revelada a se desenvolver, através do Iluminismo até o deísmo, os pensadores ocidentais recentemente deixaram a “ética religiosa” para chegar à filosofia de um “interesse bem compreendido” natural, isto é, do “altruísmo recíproco”. Por esse processo, a teoria ocidental da natureza humana encontra seu primeiro ponto de encontro, em filosofia natural, com a teoria oriental da natureza humana.